Um Pouco Sobre o Fingerstyle

Em 2007 o filme O Som do Coração foi lançado. Inicialmente chamou a atenção por trazer Robin Williams depois de muito tempo sem fazer nada de especial. A promessa e expectativa eram grandes, mas lamentavelmente o filme é fraquinho e bobo.
Não possui nada de especial além de atuação de Robin Williams e da trilha sonora, mas o que de fato gravou na cabeça das pessoas foi esse segundo!
O filme mostrava um garoto que tinha um talento musical bem peculiar onde ele mudava a afinação do violão e o tocava de forma nada convencional e até misturava efeitos como Reverb e Delay. Todos sabiam que aquilo era apenas um filme e o garoto não sabia tocar daquele jeito, mas alguém com certeza sabia, afinal de que outro modo essa trilha sonora estaria ali?
Após algumas pesquisas descobri que a trilha sonora não tinha sido responsabilidade de apenas uma pessoa, muitos participaram, e foram muitos mesmo!
Fiquei impressionado com os sons que era possível tirar do violão de uma forma bem criativa mas eu não sabia nem como pesquisar algo do tipo, já que eu não possuía nenhum nome, fosse da técnica em si ou do artista. Pouco tempo depois um amigo me apresentou esse vídeo:





Fiquei impressionado com o que eu estava vendo e além disso ainda me senti motivado a buscar mais informações sobre aquela técnica afinal, agora eu tinha um nome: Andy Mckee.
Desde então comecei uma pequena pesquisa pessoal procurando músicos que empregassem essa técnica no violão ou na guitarra. No começo foi bem difícil encontrar algo concreto mas com o passar do tempo fui me aprofundando e conhecendo mais sobre esse universo até que cheguei ao nome da técnica: Fingerstyle. Desde então a pesquisa se tornou muito mais fácil pra mim, mas mesmo assim ainda possuímos pouquíssimo material sobre essa técnica e às vezes é bem difícil saber mais sobre o assunto se você não conhecer alguém que possa falar sobre isso com você, por isso decidi fazer um apanhado de tudo o que encontrei até hoje sobre o Fingerstyle. Eu não tenho pretensão nenhuma de fazer um artigo definitivo sobre o assunto, isso é apenas o que eu pude concluir até o momento com minhas pesquisas pessoais, e preparem-se pois esse artigo está abarrotado de vídeos!
Quando eu estava no começo dos meus estudos com a guitarra me lembro de ter ouvido várias vezes a famosa lenda na qual Eddie Van Halen teria inventado o Tapping (quem lembra dessa?). Meses mais tarde descobri que o Tapping, assim como quase todas as técnicas musicais, era muito antigo e era simplesmente impossível dizer com precisão quem o teria inventado e que o mérito de Van Halen teria sido nada mais do que popularizar a técnica e gerar uma legião de novos guitarristas loucos para imitá-la!
Pois bem, com o Fingerstyle eu pude concluir exatamente a mesma coisa. De todas as fontes que pesquisei apenas uma se arriscou a dar um ano preciso na qual se originou a técnica, mas justamente por ler em vários outros lugares que há indícios muito mais antigos concluí que aquele ano era apenas o marco do começo da “popularização” do Fingerstyle.
A ano em questão é 1966 e o guitarrista é George Van Eps, lançando seu álbum “My Guitar”.
Vejam uma pequena demonstração do que ele fazia na época:




Bem diferente do que chamamos de Fingerstyle hoje, não? Confesso que me surpreendi quando vi esse vídeo pela primeira vez, mas após mais algumas pesquisas descobri qual era a ligação desse sujeito aí em cima com o Andy Mckee, no começo do artigo.
Como eu disse, Van Eps não foi o precursor da técnica, há indícios de que ela tenha sido usada há muito tempo atrás na música erudita e nos primórdios do Blues por alguns poucos músicos aventureiros que queriam trazer a praticidade do piano para a guitarra, onde seria possível tocar o corpo da música e a melodia ao mesmo tempo.
Uma curiosidade sobre o tiozinho aí em cima: ele teria sido o pioneiro da guitarra de sete cordas (quanto a isso não encontrei nenhuma controvérsia até agora)!
Apesar de ter lançado o que supostamente seria o primeiro registro oficial do Firgerstyle a técnica só ficou mais conhecida em 1974 quando o álbum “Virtuoso n. 1” foi lançado por um nome mais conhecido dos músicos: Joe Pass.




Joe Pass já era reconhecido quando decidiu se aventurar pelo Fingerstyle, o que fez com a técnica ganhasse um número maior de adeptos e consequentemente tivesse uma evolução mais rápida do que vinha tendo e começaram a aparecer os primeiros registros de Fingerstyle onde se empregava o baixo das músicas de forma totalmente independente da melodia, coisa que se tornou especialidade de Martin Taylor:




Outra pessoa que contribuiu muito para a técnica foi Lenny Breau, que assinou a coluna Fingerstyle da versão americana da revista Guitar Player de 1981 até 1984, onde além de estudar a técnica também conseguiu dar uma grande ajuda em sua divulgação.
Confiram abaixo Lenny Breau em mais um vídeo velho (eles estão quase acabando, eu prometo):




O desafio de tocar toda a melodia separadamente do baixo chamou a atenção de Charlie Hunter, que chegou ao extremo insano de juntar contrabaixo e guitarra em um mesmo instrumento de 8 cordas, onde as três últimas cordas são de contrabaixo e as restantes de guitarra. Veja só no que deu:




A evolução disso tinha meio que por obrigação tornar tudo mais difícil pro músico que decidisse se aventurar nessa insanidade toda e já que a música já tinha corpo, melodia e baixo por que não colocar também algumas levadas percussivas?
Não consegui encontrar nenhuma informação precisa de como e quando essas técnicas percussivas começaram a invadir o território do Fingerstyle mas acredito que um dos primeiros a popularizar essa modalidade foi Tuck Andress. Assistam a pequena demonstração do mesmo abaixo e descubram porque muitos o chamam de “grande mestre”:




De uns tempos pra cá a coisa foi se tornando cada vez mais “pop” e muitos novos nomes foram surgindo para dar sua contribuição a essa nova fase do Fingerstyle.
Acredito que esse ainda é um território novo que está no começo de sua exploração, por isso muita coisa nova ainda surgirá mas, por agora quero citar alguns nomes da “nova geração” que se destacaram na minha pesquisa. Além do Andy Mckee, que foi citado no começo desse artigo, vou recomendar mais alguns sujeitos interessantes.
Começando com o mais novo da lista: Sungha Jung. Esse garoto já vem fazendo um certo barulho no YouTube há alguns anos por pegar diversas músicas já conhecidas e feito um novo arranjo pra cada uma delas quase sempre com aquele Fingerstyle clássico visto no começo do artigo:




A seguir recomendo Newton Faulkner que “encontrou um jeito” de aplicar o Fingerstyle em uma música não necessariamente instrumental. Confiram a beleza do arranjo que ele fez para a música Teardrops da banda Massive Atack:




Dando uma passo um pouco além do que o nosso amigo aí em cima eu trago a seguir o já renomado Miyavi. Não se sinta chateado se não conhecer esse sujeito, ele faz muito mais sucesso em seu país de origem, o Japão. Tem muito material bom dele mas escolhi abaixo o que é considerado por muitos fãs como sua obra prima, com uma introdução que beira ao sobrenatural de tão absurda. Ele chega ao ponto de abusar do uso de slaps (técnica tradicional do contrabaixo) no violão. Confira também a música Girls Be Ambitious, onde ele mescla elementos do Fingerstyle com o apoio de uma banda completa, mas por agora eu recomendo Selfish Love só pra deixar todo mundo totalmente sem chão:




Nessa lista não poderia faltar um representante brasileiro. Sim, ele existe! Ainda não tem o reconhecimento que merece mas espere só alguns anos e você verá a grandeza que Murilo Martinez atingirá. Se gostar do vídeo abaixo pesquise seu nome no próprio YouTube e você poderá conferir muitos vídeos produzidos por ele mesmo.




Pro final eu deixei Stefano Barone que de todos esses é o meu grande favorito juntamente com Andy Mckee. Escolhi a música dele que eu considero a mais criativa em termos de técnicas percussivas unidas ao Fingerstyle:




Eu ainda teria muito mais coisas para falar sobre o Fingerstyle, mas como todos podem ver esse artigo já ficou gigantesco mas não chorem, prometo falar mais sobre o assunto dependendo da repercussão que esse artigo tiver!

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