A História Por Trás De Minhas Guitarras

Eu me lembro muito bem do quão trabalhoso e demorado foi o processo de juntar dinheiro até que eu finalmente pudesse entrar em uma loja de instrumentos musicais e escolher aquilo que seria a minha primeira guitarra.
Não existem muito rituais de passagem em nossa sociedade, e você acaba se limitando a pequenos costumes religiosos, caso tenha alguma religião. Comprar um instrumento musical novo sempre significou algo metafórico pra mim. Marcava um novo começo! Hoje, após doze anos de dedicação ao meu instrumento musical favorito decidi relembrar um pouco dessa trajetória.
Até hoje guardo em minhas contas o número de cinco guitarras possuídas ao longo de minha vida, isso contando a atual, é claro. Isso faz com a minha média pessoal seja trocar minha guitarra a cada dois anos e meio. É importante dizer que essa é uma média bem baixa para um músico profissional e como não tenho pretensão de seguir essa carreira, essa média continua me suprindo muito bem.
Minha motivação para trocar de instrumento sempre foi o timbre ou sonoridade que eu almejava explorar em cada momento de minha jornada musical e ao relembrar cada uma das guitarras que eu já tive, acabei por traçar um pequeno histórico psicológico/musical em minha vida.

Essa provavelmente foi minha primeira guitarra mas por razões óbvias ela não entra em minha conta. Eu tenho pequenas memórias dessa época onde eu ganhava guitarras de brinquedo de minha avó. Muitas coisas aconteceram comigo até que eu finalmente decidisse que queria aprender tocar guitarra mas é interessante buscar em minhas fotos mais antigas e descobrir que até mesmo nelas havia um embrião do que um dia se tornaria um dos meus maiores interesses.
Eu tinha um Super Nintendo que me proporcionou incontáveis horas de diversão e enquanto eu via a maioria de meus amigos vendendo seus videogames para comprar outros de gerações mais modernas, eu guardei o dinheiro e comecei uma pequena poupança que terminaria em dois anos com a compra de minha primeira guitarra de verdade.
Eu entrei na loja para testar uma Epiphone usada, que seria uma boa opção para um instrumento iniciante mas nem quis testá-la quando vi exposta em uma das paredes uma Strinberg Vermelha. Me permitam explicar para aqueles que não estão inteirados sobre o universo guitarrístico. A marca Strinberg sempre teve uma certa fama no mercado de instrumentos musicais de focar sua estratégia de marketing em imitar modelos famosos de certas marcas que vendiam bem. Me parece que essa proposta mudou um pouco com o passar dos anos, mas na época me lembro de ver exposta na parede da loja uma guitarra que imitava descaradamente a guitarra usada por Juninho Afram (Oficina G3), que era a minha principal influência na época.
Não acredita em mim? Tudo bem, eu posso provar! Abaixo você pode conferir a guitarra que Juninho costumava usar na época:

A imagem não é das melhores mas se você prestar atenção, na parte vermelha da guitarra existem detalhes pintados para se parecer com raios (ou rachaduras, nunca consegui entender bem isso), que era o que conferia um charme especial a uma guitarra com o design pensado a partir de um modelo clássico. Agora confira abaixo a minha primeira guitarra:

Fala sério né? Se isso não fosse uma tentativa descarada de vender guitarras tosqueiras para fãs desavisados do Juninho Afram eu não sei mais o que era! Eu como bom fã desaviado que era, decidi comprá-la assim que a vi pela primeira vez.
Foi uma compra com motivação emocional, algo que jamais iria se repetir em minha história como músico. A guitarra era simples? Sim. Era tosca? Feito a Ana Maria Braga em época de carnaval! Mas ela me acompanhou em incontáveis horas de treino onde me dedicava a praticar os exercícios repetitivos que meu professor de música me passava. Foi com ela que ensaiei os primeiros acordes de minhas primeiras bandas. Serviu como um excelente incentivador, como todo primeiro instrumento de um músico deve servir.
Cabe aqui algumas explicações sobre essa foto maluca. Isso era uma audição da escola de música na qual eu estudava. Todos os anos eles montavam bandas compostas pelos alunos e faziam uma grande apresentação. Era um modo de dizer aos pais "Ei, veja só pra que está servindo o dinheiro que você nos paga!". Antes dessa audição começar um fotógrafo se reuniu com todos os alunos no camarim e pediu pra quem ninguém desviasse o olhar quando ele se aproximasse para tirar fotos. Eu era tímido e encarar a câmera seriamente foi a solução que encontrei para o que o fotógrafo me pedia, por isso estou parecendo um robô segurando uma guitarra!
Algum tempo depois eu começava a sentir necessidade de um som um pouco mais encorpado, o que pode ser traduzido como: eu queria ter uma guitarra capaz de fazer as alavancadas que eu escutava meus ídolos fazerem!
A alavanca de algumas guitarras tem a habilidade de conferir sonoridades "estranhas" em uma guitarra que uma vez bem empregadas acabam por soar interessantes, como você pode conferir AQUI. Por estar cada vez mais impressionado com essa sonoridade acabei optando por uma nova guitarra que pudesse me proporcionar isso, e foi nessa época que comprei uma Samick KRT, que era exatamente igual a dessa foto:

E pra não perder o costume, eis aqui uma foto extremamente vergonhosa comigo usando essa mesma guitarra:

Vale lembrar que minhas alavancadas nessa guitarra não serviam pra absolutamente nada além de desafinar o instrumento no meio de uma apresentação!
Eu já revelei em outras ocasiões nesse mesmo blog que tive uma adolescência fortemente influenciada pelo Heavy Metal. Nessa fase de miha vida entrei uma loja de instrumentos musicais apenas com a intenção de conversar com um dos vendedores, que era um amigo meu. A conversa se transformou rapidamente em negociação quando fui surpreendido com a presença de uma Kramer Flying-V exposta na loja. Fiquei boquiaberto ao ver uma guitarra que era um dos ícones mais famosos do meu estilo musical favorito na época e decidi imediatamente trocar minha velha Samick por aquela Kramer.
Eu estava habituado a fazer negociações acirradas na hora de comprar um novo instrumento e meu Super Nintendo me ensinou que sempre isso envolveria algum sacrifício de minha parte. Dessa vez minha velha guitarra não foi o suficiente, precisei me livrar do meu violão também e pela primeira vez desde que comprara meu primeiro instrumento eu não tinha mais violão. Doeu, mas eu acreditava que era por uma boa causa! O resultado dessa negociação dolorida foi minha primeira guitarra tecnicamente boa de verdade e visualmente chamativa, ou seja, isso:

Essa guitarra foi responsável pelo momento de minha trajetória musical onde eu mais fui sacaneado por meus amigos (com razão, como vocês podem ver), mas foi pelas incontáveis dores de cabeça que ela me causou que acabei optando por trocá-la.
Ela possuía um recurso chamado D-Tuna que consiste em um dispositivo instalado na ponte (perto da mão direita do guitarrista, para os leigos) que com apenas um puxão ela reduzia a afinação da sexta corda para um tom abaixo da afinação padrão. Esse recurso é muito utilizado e desejado por guitarristas que se aventuram em estilos musicais mais pesados, mas deixa eu te falar uma coisa: ESSA PORCARIA NÃO FUNCIONAVA! Toda vez que eu tentava usar o recurso acabava por cagar completamente a afinação da guitarra, o que significava perder muito tempo de ensaio já que a guitarra possuía ponte flutuante (para os leigos: afinar uma guitarra com ponte flutuante é uma tarefa hercúlea. Muitos guitarristas profissionais contratam pessoas para fazer isso por eles).
Tinha outra coisa que me irritava nessa guitarra: seu formato de rabo de peixe. Eu até achava legal no começo mas devido a seu corpo diagonal e liso era impossível apoiá-la em meu colo para simplesmente aprender uma música nova no conforto do meu lar. Sempre que eu queria fazer alguma coisa com essa guitarra eu era obrigado a fazer em pé, era um saco!
Decidido a facilitar minha vida musical decidi trocá-la e coloquei um anúncio no Mercado Livre. Pra minha sorte ela pertencia a uma marca e modelo de bastante procura (acredite se quiser) e logo me apareceram propostas interessantes. Acabei escolhendo uma troca direta com uma guitarra Jackson vermelha acompanhada de alguns pedais. Deixo aqui um dos momentos mais divertidos dos quais me lembro de ter usado essa guitarra:

A longa cabeleira, a camiseta do AC/DC, a calça camuflada, uma guitarra Jackson e "Paranoid" sendo tocada. Eu praticamente posso sentir o cheiro do Heavy Metal ao rever essa foto!
Apesar da Jackson suprir bem a minha necessidade de tirar um som mais pesado, ela também possuía ponte flutuante e minhas experiências passadas com esse tipo de guitarra foram o suficiente para decidir me desfazer dela também. Passei alguns meses pesquisando e testando alguns instrumentos até me decidir qual seria minha nova guitarra e acabei optando por uma Ibanez. Separei o dinheiro e entrei na loja pra comprar minha Ibanez, mas a seu lado estava exposta uma Cort Zenox. Pensei comigo mesmo "já estou aqui mesmo, não custa nada testar as duas". Resultado, gostei mais do som da segunda acabei me decidindo por ela.

Apesar de ser a minha favorita da lista, ela também foi a guitarra com a qual tive menos oportunidades de tocar ao vivo. Isso aconteceu pelo fato de as bandas que tentei montar com ela nunca terem saído dos ensaios de estúdio e em seguida eu acabar optando por dar um tempo nessa vida de banda (sem deixar a música de lado) e essa é a razão de eu ter feito essa foto horrível só pra poder mostrar essa guitarra nessa postagem. Ela possui um timbre mais grave e versátil do que minhas guitarras anteriores e posso optar por tocar sons mais pesados ou mais leves com ela e ainda assim ficar com um som satisfatório.
Eu já tenho vontade de trocá-la, mas estou deixando essa idéia em segundo plano devido a outros projetos meus que exigem mais a minha atenção nesse momento, mas por enquanto eu posso dizer que a minha vida e formação musical acabam por serem refletidas em minhas escolhas na hora de comprar minhas cinco guitarras, porque diferente de quando eu era um bebê, hoje em dia não é mais a minha avó que as compra para mim!

Veja Também

Nenhum comentário:

Postar um comentário