Eu Sou Dragão Véio

Imagem: Guild Wars 2
Em 2004 joguei RPG pela primeira vez. Tecnicamente a primeira vez aconteceu bem mais cedo, em 1996 com um colega da escola, me lembro de ter gostado mas na época eu era muito pequeno (6 anos) e a falta de frequência de jogos me fez esquecer o hobby. De volta a 2004 tive um contato mais intenso com as aventuras épicas e rolagens de dado em uma viagem que fiz para outra cidade. Fiz ali um novo amigo e junto com a amizade fui apresentado formalmente ao universo dos jogos que acontecem dentro de nossa imaginação. Na época o D&D estava em sua versão 3.5 mas fui apresentado a um sistema caseiro desse meu novo amigo. Quando voltei pra casa minha cabeça fervia com mil ideias e não demorou para que eu dedicasse minhas tardes livres a escrever meu próprio universo e regras para um RPG que seria jogado mais tarde com alguns amigos. As horas que dediquei criando as regras para raças e classes, armas e armaduras, magia e itens mágicos e até mesmo a enorme lista de cidades e reinos aconteceu pelo simples motivo de eu morar em uma cidade no interior de São Paulo onde não existia uma livraria sequer e a única banca da cidade não trazer nem mesmo a Dragão Brasil para que eu pudesse ter alguma referência. Na época a internet não era muito comum por aquelas bandas e fazer compras online ainda era visto como "um enorme perigo" pela maioria. Só me restou escrever tudo a mão mesmo porque o único computador da casa era tão ruim que ligava apenas quando tinha vontade.
Universo e regras criados, o próximo passo foi convidar cinco amigos além de meu irmão mais novo e jogarmos uma partida mestrada por mim. Foi necessário uma introdução de quase uma hora para explicar os conceitos básicos de RPG para todos e minha inexperiência atrasou todo o processo mas sabe o que aconteceu? Quando nos demos conta estava escurecendo, todos precisavam voltar para suas casas e ninguém queria parar de jogar.
Logo nossos encontros se tornaram diários e passei a fazer alguns ajustes nas regras e no cenário conforme a necessidade. Eu percebia que era mais divertido quando eu dava espaço para a interpretação dos jogadores do que quando tentava criar regras elaboradas para cada ocasião. Todos preferiam um jogo com regras simples e diretas. Sem querer ou saber, todos éramos Old School.
Um detalhe importante eram os dados. Nenhum de nós possuía um kit de dados de RPG em casa e quando muito alguém tinha um par de dados de seis faces retirado de um Banco Imobiliário esquecido pela família. A total ausência de dados em minha casa nos obrigou a achar uma solução criativa, um truque que eu aprendera com aquele meu novo amigo de outra cidade.

Faber-Castell Jumbo
Imagem: Faber-Castell
Sabe esses lápis da Faber-Castell que possuem suas hastes com base hexagonal? Pois é, nós desenhávamos pequenas marquinhas de pontos em cada um dos lados que iam de um a seis pontos, formando assim nosso D6 improvisado. Na hora de jogar simplesmente rolávamos os lápis em cima da mesa e conferíamos o resultado. Era tosco? Muito! Mas era o que tínhamos e sabe de uma coisa? Não atrapalhou um segundo da nossa diversão, então tava valendo. Tá certo que os lápis que eu tinha não eram exatamente esses da foto acima, mas você entendeu o princípio, certo?

Anos mais tarde eu iria me mudar de cidade e seria convidado por um amigo para integrar sua mesa de D&D 3.5. Fiquei encantado com a qualidade gráfica dos livros e com a riqueza de detalhes. Mais tarde comprei meus próprio livros da 4E e experimentei pela primeira vez jogos com miniaturas. No começo foi bem divertido mas depois de um tempo eu percebi que o excesso de regras estava me irritando e gradativamente o excelente material gráfico dos livros passou a não fazer mais tanta diferença pra mim. Eu queria retornar aos jogos com regras simples. Mais do que isso, eu achava que tava "fácil demais" jogar aquela edição do D&D. Era muito "apelão" e por consequência muito sem graça. Em minhas andanças pela internet descobri um projeto nacional bem interessante.  Meses mais tarde eu comprava meu primeiro exemplar do Old Dragon e assistia o nascimento da Redbox Editora.

Primeira Capa do Old Dragon
Imagem: Redbox Editora
Após uma primeira leitura do livro - que é pequeno mas tem tudo o que a gente precisa - entendi por fim o real significado do termo Old School dentro do RPG. Aquilo parecia ter sido feito pra mim e desde então passei a apresentar o OD com a determinação de um jesuíta e nunca houve sequer um jogador para quem eu mestrasse o dragão "véio" que não tenha gostado da partida. Fui o responsável por vários amigos migrarem de alguma versão do D&D para o Old Dragon. Não me entendam mal, eu tenho todo o respeito pelo D&D e por toda sua história, apenas não me sinto representado por suas versões mais recentes. Eu até joguei uma partida da 5E mas ela continua tendo o mesmo problema que eu encontrava em suas duas irmãs mais velhas: continua sendo "apelão" demais! Eu gosto da dificuldade no jogo. Eu gosto de ter que pensar junto com os meus companheiros de grupo em cada ação que será feita. Eu gosto do medo do "save or die". Não é mais emocionante? A sensação de vitória não é maior no final? Além de tudo isso ainda tem outra vantagem: eu não preciso pagar 80 reais pra cada livro que eu quiser comprar. A média de 30 reais cobrados pela Redbox é justa e a qualidade e material gráfico são tão bons que não me deixam sentir nenhuma saudade dos tempos de D&D.

Para encerrar com chave de ouro o Old Dragon/Redbox Editora possuem a comunidade mais prestativa e atenciosa que eu já vi. Você já tentou entrar no universo dos jogos online? Pois eu já! Em qualquer um deles você é tratado como se fosse o próprio satanás tentando assistir o velório do Papa até que consiga finalmente aprender os conceitos básicos do jogo para não ser mais chamado de "Noob". O que eu tenho visto na lendária "Lista" ou no Grupo do Facebook é uma atenção inigualável por parte dos jogadores e mestres veteranos. Tá com dúvida? Nunca jogou RPG antes e precisa de uma força? Pode perguntar que ali você vai receber um tratamento de vó. Eu mesmo já ajudei alguns dos novatos e já fui ajudado pelos mais experientes.

Hoje, 11 anos depois de ter começado a jogar RPG me sinto muito bem representado e com todo o orgulho que posso carregar eu digo: eu sou Dragão "Véio"!

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5 comentários

  1. ;___;
    muito bonito seu relato!

    E já sabe, estamos ai para o que pudermos ajudar!

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    1. Eu quero uma camiseta "eu sou dragão véio"!!! haha

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  2. Cara, me identifiquei com seu relato! Sou muito fã do Old School contido no Old Dragon.

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  3. Narro no estilo "Old School" em qualquer edição de D&D. Não é o sistema que define o estilo do Mestre. Hoje narro D&D 5ª edição e estou muito satisfeito no rumo que o sistema está tomando e parece muito com o do Old Dragon, que venho acompanhando desde o financiamento e consumo todos os seus lançamentos. Essa publicação fala muito da "geração old school" que vemos nos últimos anos. http://rollandplay.com.br/2015/01/16/preguica-de-ouro/

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