Beasts of No Nation

Foto: Divulgação
Para fazer uma análise superficial e rápida sobre as grandes produções que vemos nos cinema eu posso separar a maioria dos filmes em duas grandes categorias. Na primeira temos as produções responsáveis por pagar os salários da maior parte dos profissionais da indústria. Em geral são filmes com um orçamento altíssimo tanto em sua produção quanto em seu marketing, abusam de efeitos especiais e atores conhecidos pelo grande público e o principal de tudo nessa receita: mostram a história que todos querem ver. Não quero menosprezar essa categoria, alguns dos filmes feitos nela me agradam muito e até mesmo aqueles que eu não gosto são responsáveis por fazer sobrar aquela grana pro estúdio investir em filmes menores, mas que em geral despertam mais o meu interesse.
Na segunda categoria temos justamente esses filmes que não possuem o mesmo apelo comercial mas que muitas vezes trazem prêmios importantes para o estúdio e vez ou outra até se transformam em um novo pedaço da história do cinema. É claro que nas duas categorias existem suas exceções, mas mesmo nessa segunda ainda existe uma grande dificuldade em se contar certas histórias, seja pela falta de fé do estúdio ou por medo de gerar um repúdio grande demais no público.
Beasts of No Nation não cabe em nenhuma das categorias anteriores. Como qualquer produção original da Netflix, o filme já chegou pago as casas das pessoas. A forma de negócio da Netflix permite que em suas produções se arrisque mais e não se preocupe com um valor de bilheteria.
É por isso que esse filme mostra a história que ninguém quer ver. 
Baseado no livro de Uzodinma Iweala, o filme nos apresenta a Agu, um menino que vive em meio a uma guerra civil em um país africano não nomeado durante a história, e de acordo com a situação política de vários países africanos, eu diria que os suspeitos são mais numerosos do que pensamos.
Não dá pra negar que não há vergonha ou medo na história mostrada aqui. As cenas não raro chocam - e algumas chocam muito - e não existe um personagem sequer que pertença ao grupo dos heróis hollywoodianos. A confusão política de diversos grupos militares e lavagem cerebral feita dentro do batalhão no qual Agu vai parar após se separar de sua famílias por duas principais razões das quais não mencionarei aqui, deixam claro a falta de objetivos claros com as quais os guerrilheiros são preparados.
Agu durante todo o filme representa os nossos olhos diante daquele cenário onde a guerra simplesmente não faz sentido. Nenhuma trama política nos é explicada por completo e em nenhum momento fica claro qual é a missão de Agu, e isso só torna tudo mais difícil para o menino que demora a perceber o quão rápido e drasticamente mudou por causa da guerra a qual foi forçado a entrar.
A única coisa que me incomodou nesse filme foi a duração de 137 minutos dos quais pelo menos 20 poderiam ter sido subtraídos sem comprometer a obra. Ainda assim somos brindados com atuações surpreendentes do estreante Abraham Attah no papel de Agu e do veterano Idris Elba no papel tão bem executado de um comandante que sequer me lembrei de seus personagens na franquia cinematográfica de Thor e no revolucionário seriado The Office.
As qualidades são muitas, mas o mérito do filme está em aproveitar a oportunidade de contar uma história que dificilmente encontraria espaço dentro dos estúdios convencionais sem que fosse exigido a inclusão de um herói ou de um final mais melodramático. É mais um daqueles casos onde a mensagem e as denúncias da obra acabam valendo mais do que a própria. Louvável.
Apesar de ser ótimo, Beasts of No Nation não é um filme perfeito, ainda assim fico cheio de expectativa pelas próximas produções da Netflix.

Nota: 4/5

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