[crônica] Chave de Segurança

Foto: Free Images
Todos nós vez ou outra temos um dia amaldiçoado pelas quatrocentas legiões do inferno onde somos obrigados a encarar o atendimento telefônico de nossos bancos, mas teve uma vez em que o próprio pata rachada olhou para sua bola de cristal arroxeada e apontou um sujeito com sua unha cumprida e fina.
-Este aqui.
O lacaio corcunda mantinha o tronco encurvado e esfregava as mãos. De sua boca escorria uma baba gosmenta e cinza quase líquida.
-Sim, mestre!
Na terra o sujeito tentava acessar a conta de seu banco pela internet e encontrou um problema.
-Que droga, essa chave de segurança de novo!
A primeira ligação foi rápida. O atendente logo o chamou.
-Em que posso ajudá-lo, senhor?
-Preciso ativar uma chave de segurança em uma de minhas contas...
-Me informe o número da conta, por favor. O da agência também.
Ele informou.
-Muito bem, encontrei os seus dados aqui. Pode me confirmar o seu nome completo?
-Tudo bem - respondeu antes de informar seu nome e outros dados pessoais solicitados na sequência.
-Perfeito. O senhor quer ativar uma chave de segurança, certo?
-Sim, esse é o ponto da minha ligação inclusive. Dá pra fazer?
-Com certeza.
-Ótimo!
-Mas você precisa retornar ao menu telefônico e selecionar outra opção porque isso não é comigo.
-Mas hein?
-Não se preocupe, é bem simples, eu vou transferí-lo para que o senhor não precise refazer a ligação.
-Ah, menos mal então...
E a ligação caiu deixando o rapaz desejando que a instituição financeira responsável pela administração de suas contas deitasse de bruços no colo de satanás e tivesse suas ancas espancadas por um taco de beisebol trespassado por uma porção de pregos enferrujados.
No instante após aquele uma nova ligação foi feita e atravessando o menu completo pela segunda vez finalmente foi atendido por um ser humano e não por uma gravação.
-Em que posso ajudá-lo senhor?
Questionando a si mesmo sobre a capacidade cognitiva daqueles atendentes preferiu usar poucas palavras de forma pausada.
-Chave de segurança... ativar... fé em Deus!
-O senhor gostaria de ativar a chave de segurança em uma de suas contas?
-Estou perplexo ante a tamanha perspicácia!
-Me dê um minuto, vou verificar aqui as suas informações.
Já controlando o fôlego, o rapaz aguardou por quase cinco minutos.
-Podemos fazer isso.
-Ótimo!
-Mas antes o senhor vai precisar ligar outra vez e informar os números de sua outra conta.
-Hein?
-Sim, o senhor já possui outra conta com uma chave de segurança. Se o senhor passar essas informações eu consigo fazer com que a chave de segurança passe a valer para suas duas contas.
-E não dá pra fazer isso sem ter que ligar de novo?
-Infelizmente não. É um processo automático, não tenho acesso aqui.
-Tudo bem - respondeu se dando por vencido - o que é um peido pra quem tá cagado, né?
-Como?
-Ah, esquece. Vou ligar de novo aqui!
E desligou.
No inferno o tinhoso e seu lacaio gargalhavam.
Na terceira tentativa todo o processo se repetiu e alguns minutos mais tarde um ser humano o atendeu, dessa vez uma mulher.
-Em que posso ajudá-lo?
-Chave de segurança. Quero vincular uma chave existente a uma conta nova. - respondeu adiantando as explicações.
-Aguarde um minuto, vou verificar.
Cinco minutos depois, quando a perna do rapaz balançava e chocava o pé contra o chão de forma rápida e repetitiva a atendente o chamou, leu todas as informações que seriam ativadas com aquela solicitação e por fim perguntou.
-O senhor me autoriza a ativar a mesma chave de segurança?
-Autorizo tudo minha filha!
-Tudo bem, mais um minuto por gentileza.
O rapaz teria segurado um crucifixo se houvesse um a sua disposição naquele momento, ao invés disso apenas esperou.
-Está feito.
-Jura por Deus?
-Como?
-Está feito mesmo? Assim tão fácil e rápido?
-Sim senhor. Posso ajudar em mais alguma coisa?
-Acho que não, muito obrigado...
No inferno o fede-a-enxofre cutucou seu lacaio com um cotovelada.
-Olha lá, minha parte preferida!
-Senhor, preciso lhe passar uma informação importante a respeito de seu cartão. - afirmou a atendente antes que o rapaz pudesse desligar.
Preocupado com o a tal informação ele mordeu a isca.
-Sim?
-Notei que não está ativado uma segurança para o seu cartão de débito. Vou ativá-la para o senhor, ela lhe garantirá o devolvimento de qualquer valor retirado de sua conta caso o senhor seja roubado. Vai custar só dois reais e oitenta e seis centavos por mês...
-Ah... eu passo!
-Como?
-Não quero esse negócio aí.
-Mas e se o senhor não contratar o serviço e alguma coisa acontecer a seu cartão, como fica?
-Você está me ameaçando?
-Não senhor, eu apenas...
-Isso ta parecendo muito com uma ameaça de mafioso.
-Longe de mim senhor...
-Você disse que se eu ativar o serviço estarei seguro e se não o ativar algo de ruim pode acontecer a meu cartão, certo?
-Sim...
-Puta que pariu!
-Não, espera, calma senhor. Não foi isso que eu quis...
 -Isso aqui tá parecendo um episódio do Sopranos!
-Quem?
-Os Sopranos. É uma série de máfia muito boa!
Do outro lado da linha a atendente deixou escapar uma gargalhada e de imediato se recompôs preocupada com sua reação.
-Não estou ameaçando ninguém senhor...
-Você entendeu a razão de eu estar achando essa conversa estranha?
-Sim mas...
-Olha só, a vida é muito curta, vamos resumir isso aqui. Eu não quero serviço nenhum!
-Mas senhor, no país em que vivemos a gente nunca sabe quando vai ser assaltado...
-Eu prefiro correr o risco mesmo assim.
-Tem certeza?
-Peraí que eu vou consultar aqui os orixás... - ainda próximo ao celular começou a emitir barulhos que julgou que fariam alusões a rituais indígenas - eles disseram que está tudo bem!
Dessa vez foi a vez do rapaz desligar
No inferno o lacaio do coisa ruim enxugava as lágrimas.
-Essa foi muito boa. Será que tem mais alguma coisa desse tipo pra gente fazer hoje?
-Você não viu nada, garoto, deixa eu te mostrar a NET agora!

Nota do autor: Por razões óbvias não mencionarei o nome do banco no qual me inspirei para escrever essa crônica. Em um assunto completamente diferente eu gostaria de dedicar o texto de hoje ao atendimento telefônico do Bradesco que vem rasgando o meu ânus há algum tempo.

Veja Também

Nenhum comentário:

Postar um comentário