[crônica] Sua Música Tem Qualidade

Foto: Freepik
- Sua música tem qualidade. - pronunciou o sujeito sentado na cadeira do meio.
- Tem técnica também! - completou a mulher sentada a direita do primeiro enquanto se encurvava para frente a fim de ser vista pelos demais.
- Personalidade. Não podemos esquecer da personalidade! - acrescentou o terceiro, sentado na cadeira da esquerda.
Separada dos três por uma mesa retangular e comprida a menina abriu um sorriso que teria iluminado o salão se tivesse tido tempo.
- Não serve! - decretou o primeiro sujeito.
Tão rápido quanto o sorriso se formou seu rosto agora voltou a posição inicial. Suas mãos tremiam e até suavam um pouco.
- Não entendi. - arriscou a menina - Pensei que vocês tivessem gostado de minha música.
- Gostamos. - respondeu o primeiro.
- Gostamos muito... - acrescentou a segunda.
- O problema - retomou o primeiro após levantar a mão em direção a sua colega fazendo com que ela interrompesse a fala - é que estamos procurando um tipo de música diferente.
- Muito bem - reagiu a menina - Eu sei que as vezes o meu jazz soa meio antiquado. Posso trazer uma influências mais modernas, que sabe um pouco de rock pra conquistar mais as pessoas...
- Buscamos um som merda! - interrompeu novamente o primeiro.
Dessa vez seus colegas sentados em cada um dos lados balançavam suas cabeças reforçando sua afirmação.
Uma gargalhada adocicada e meio rouca começou a fugir da boca da menina.
-Eu pensei que vocês estavam falando sério...
O terceiro sujeito coçou o nariz. Além disso não houve nenhuma reação ou mudança de expressão nas três testas sisudas a frente da menina.
- Meu Deus, vocês estão falando sério!
- Ninguém mais quer escutar essas coisas elaboradas. A gente busca uma coisa com frases mais repetitivas, arranjos grudentos e harmonias fáceis de se memorizar. A gente quer um som... um som...
- Merda? - perguntou o terceiro.
- Isso! - respondeu estralando o dedo a apontando para seu colega, agora sorridente. - Você pode fazer isso? - completou endereçando a nova pergunta a menina.
- Não tenho certeza... - respondeu com a pele de sua testa desalinhada - se eu sou quem vocês estão procurando.
A menina apoiava o violão a seu lado e nos fundos da sala uma faxineira tirava o pó de um piano de calda.
- Você é perfeita. - retrucou o primeiro.
- Maravilhosa! - acrescentou a segunda.
- Então vocês gostaram da minha música? - questionou a menina.
- Muito. - arriscou o terceiro.
O primeiro se virou para sua esquerda o o lançou um olhar que seria capaz de desintegrar uma montanha. O terceiro encolheu os ombros e olhou para baixo. Antes de retomar as rédeas da conversa o primeiro coçou a própria garganta com um ruído grave enquanto tapava a boca com seu punho direito fechado.
- Muito!
- Então vocês vão gravar? - perguntou a menina com um misto de esperança e confusão.
- De jeito nenhum, você está louca? - retrucou o primeiro seguido de seus dois lacaios parafraseadores.
- Não entendo. O que vocês querem de mim afinal?
- Talvez um corte de cabelo e umas mechas coloridas. - disse o primeiro pouco antes de gesticular para que sua colega o ajudasse com as instruções.
- Vou ligar pro Peter!
- Boa ideia! O Peter é ótimo, você vai adorar.
- Quem é Peter? - perguntou a menina quase com nojo do nome que foi obrigada a pronunciar.
- É o nosso personal trainer.
- Pra quê eu vou querer um personal trainer? - ergueu a voz.
- Ela vai te deixar com um corpinho mais bonito. - explicou a segunda.
- Tem mais apelo. - acrescentou o primeiro.
- Mas e minhas músicas?
- Deus me livre!
- É, Deus me livre!
- Como assim? Vocês não me querem como cantora?
A menina se sentia em um labirinto e sequer podia lembrar como foi parar ali.
- Claro que queremos. O que a gente não quer são essas suas músicas. - explicou o primeiro.
- Eu posso fazer outras, eu acho...
- Não se preocupe com isso. O pessoal da produção sabe o que funciona!
- Mas vocês só querem mudar meu visual e minhas músicas? Eu não vou fazer nada além de gravá-las?
O primeiro bateu a palma de suas mãos uma contra a outra apenas uma vez e ergueu a voz.
- As aulas de dança! Eu quase me esqueci... - observou com um sorriso no canto da boca. - Você vai fazer aulas de dança. Precisa valorizar o seu corpo!
- Meu corpo?
- Eu quis dizer o que você vai ganhar, com o Peter.
A menina podia jurar ter notado gotas de asco escorrerem da boca do primeiro em sua última frase.
- Eu não sei se é isso o que eu quero. - revelou.
Um barulho quase agudo escapou da boca da segunda e do terceiro e foram acompanhados de porções de ar empurradas para fora de seus pulmões e aparadas na altura de suas bocas com as pontas de seus dedos.
- Todo mundo quer isso! - afirmou o primeiro após uma risada debochada.
- Bem, eu não.
O riso cessou.
- Bom, é isso ou então voltar a tocar em churrascarias!
Gargalhadas brotaram dos dois lados do primeiro. A menina, já sem paciência, apanhou seu violão e saiu da sala deixando uma última consideração aos três.
- Pelo menos eu gosto da carne que eles servem!
O barulho da porta batendo ecoou pelo salão.
- É uma pena. Essa aí até que era bonitinha... quem é o próximo?
 A segunda o entregou um currículo com uma foto em anexo.
- Jesus, que bicho feio! Nem mande entrar... e depois dele?

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