[crônica] Nem Sempre Há Escapatória

Foto: Edwin Pijpe
Fui ao banco. Hoje em dia são poucas as ocasiões nas quais preciso ir ao banco mas, apesar de reduzida, a maldição ainda não foi quebrada.
Entrar no banco já não é uma tarefa amigável para quem anda por aí de mochila, já que nem todos os bancos possuem um guarda-volumes na entrada.
— É só a porta giratória, pessoal. Não há razão para alarde. — informou meu cérebro a todos os gerentes de setor de meu organismo.
Vencido esse obstáculo, atravessei o corredor e cheguei a uma ampla sala de espera. Não era dessas com lugar pra sentar.
A minha frente, havia uma fila de pessoas que não estavam familiarizadas com a utilidade das faixas amarelas no chão.
— O senhor está na fila? — perguntei a um homem que parecia ter envelhecido ali.
— Sim.
— É que o senhor tá meio fora da faixa...
— Não tem problema. — respondeu apertando o meu ombro e exibindo um sorriso despreocupado.
As faixas amarelas são uma tecnologia revolucionária, mil anos à frente dessas pessoas.
Fazia tanto tempo que eu não ia ao banco que sequer me lembrei de me preparar para os momentos de tédio que eu iria enfrentar. Em outra época eu teria levado um livro. Um livro é bom, você começa a se perder dentro da história e já está na sua vez de ser atendido. Minha opção reserva seriam as músicas, em meu celular. Eu não levei o fone. Ser o cara que escuta suas músicas sem fone não estava em meus planos. Usar a internet do celular também não era uma opção, já que minha bateria estava no fim. Foi então que meu radar de babacas apitou.
— Tão querendo fazer uma ditadura gay nesse país! — indagou um senhor poucos metros a minha frente.
Ele mantinha uma conversa inflamada com o sujeito a seu lado na fila.
— Muito bem, temos um babaca nos arredores — orientou meu cérebro — Não há razões para pânico!
O protocolo era o mesmo em quase todas as ocasiões: ignorar o babaca até que ele desistisse ou fosse embora, mas nem sempre há escapatória.
— E essa perseguição a família cristã? Um absurdo!
— Minha nossa, esse é dos grandes! Se segurem todos aí embaixo! — ordenou o cérebro a meus membros superiores.
Sempre achei curioso o poder que a babaquice tem de fazer com que certos músculos de meu corpo se retraiam e expandam de forma desordenada. Talvez esses sejam os únicos momentos em que arranhar o meu próprio rosto não seja tão incômodo.
Um funcionário do banco se aproximou.
— Por gentileza, o senhor podia falar um pouco mais baixo?
Durante quase vinte segundos ficamos livres.
— E essas mulheres, hein? Se vestem feito umas vagabundas e depois reclamam por serem estupradas...
Era como se meus dentes tentassem retornar para dentro de minhas gengivas. Uma moça até interrompeu a conversa. Tentou argumentar, coitada. É o mesmo que tentar ensinar regra de três a uma abóbora, só que com menos eficácia.
O suor fugia pelos poros de minha testa para que não fosse agredido pelos músculos que lutavam entre si, dentro de meu corpo.
— Concentre-se em outra coisa. Uma espreguiçada, que tal? — sugeriu o cérebro.
Obedeci. Estiquei os braços para cima o máximo que podia. Os dedos das mãos estavam entrelaçados.
— Outro dia vi na TV sobre um professor "traveco" dando aulas por aí.
A espreguiçada passou a não ser mais o suficiente. Minhas costas começaram a se envergar para trás.
— Sorte dele que não é na escola do meu filho. Eu não ia aceitar!
Uma idosa me lançou um olhar assustado. Ela fez o sinal da cruz.
— Se meu filho vira gay eu curo é na porrada!
O pior aconteceu, o babaca me notou com as costas envergadas.
— Algum problema, rapaz? Você está vermelho…
O cérebro assumiu  que tínhamos um alerta máximo e decidiu esperar pela minha resposta.
— Problema nenhum. Você apenas falou tanta merda que eu tive vontade de comemorar enfiando minha cabeça em meu próprio cu!
Existem dias nos quais não se pode escapar de um babaca.

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