[crônica] Misantropia

Imagem: Freepik
Fui até a casa do Luís. Era seu aniversário.
— Meus parabéns, Luís! — congratulei.
— Obrigado. Tem cerveja no isopor, fica à vontade!
Eu não bebo, mas agradeci mesmo assim.
O Luís é um cara bacana, sabe? Sem querer faz a gente se sentir mal em faltar a festa de seu aniversário.
Eu não sou muito de festas, prefiro o sossego único de minha casa, ou até mesmo a companhia de poucos amigos.
O problema é que o Luís é um cara bacana, conhece muitas pessoas. Acho que todas elas estavam nessa festa. Mal dava pra andar de um cômodo a outro.
Alguém ligou a TV da sala e decidiu colocar um desses jogos em que as pessoas ficam em frente a tela executando passos de dança com a destreza de orangotango.
O barulho me incomodava, não vou mentir, mas seria suportável se não fosse acompanhado de incontáveis e estridentes “urruls”.
O Luís atravessou a sala no momento da algazarra. 
Vai dar uma bronca, pensei. Vai dizer que o vizinho pediu silêncio, pensei.
Nenhuma palavra.
Porra Luís, por que é que você tinha que ser tão bacana?
Permanecer naquela sala não faria bem a meu fígado. Me levantei e caminhei até o quintal, nos fundos da casa.
Havia uma piscina, mas ninguém nadava. Mal dava pra ouvir o barulho de dentro da casa. Ali fora as pessoas preferiam conversar. O que tinha de mais barulhento eram eventuais gargalhadas. Totalmente aceitável.
Tentei conversar com algumas pessoas.
— De onde você conhece o Luís?
— Da época da escola. — respondeu um.
— É meu primo. — respondeu outro.
— É meu chefe. — acrescentou um terceiro.
Incrível! O Luís é bacana a ponto de convidar um de seus funcionários pra festa, pensei.
— Todo o pessoal do escritório está aqui. — concluiu o sujeito.
Mas que diabos, o Luís está tentando ganhar o troféu miss simpatia esse ano?
Dez minutos depois, todos concordávamos o quão bacana Luís devia ser. Minha habilidade social se esgotou. Existe alguma coisa em meu organismo, não sei o quê, mas quando estou em um evento social como esse, meus órgãos entram em greve e começam a me esclerosar até que eu os leve para longe das pessoas. 
Olhei para o relógio de meu celular. O médico da família me explicou, posteriormente, que não era possível, mas eu sou capaz de jurar que tive um princípio de infarto ao descobrir que eu só estava há meia-hora no meio de todas aquelas pessoas.
Muito bem, eu só preciso aguentar mais uma hora e já posso ir embora sem ofender o coitado do Luís, pensei.
Dez minutos depois eu pedia pelo amor de Deus para que um alienígena devorasse o meu cérebro. A minha frente uma senhora, que alegava ser tia do Luís, tentava me evangelizar a respeito dos benefícios que o vinagre pode trazer a saúde humana. O que essas velhas tem com o vinagre, afinal?
— O mundo anda tão violento… — continuou a senhora, agora arriscando o segundo assunto mais abordado por sua faixa etária.
— Eu vou ao banheiro, volto já!
Despistei a tia do aniversariante. 
Quando me dei conta, o quintal estava cheio de parentes do Luís. Grande parte deles com idade o suficiente pra me aconselhar sobre os benefícios do vinagre. De repente, retornar para a sala não me pareceu má ideia.
Ao entrar na casa meu ouvidos alertaram o meu cérebro que as pessoas na sala dançavam uma música da Ivete Sangalo. Voltei para o quintal.
Se eu comer salgadinhos o suficiente posso acabar passando mal, pensei. 
Avancei até a mesa e comecei a engolir coxinhas e enroladinhos de salsicha. Aceitei o desafio pessoal de não mastigar absolutamente nenhum alimento ingerido naquela noite. Decretei férias coletivas por quinze minutos a todo o meu sistema digestivo.
— Está tudo bem? — perguntou Luís. — Você parece nervoso com alguma coisa…
Com a bochecha direita inchada por abrigar um salgado inteiro, respondi.
— Luís, vou ser sincero contigo. Eu não to aguentando isso aqui. A culpa não é sua, nem das pessoas que você convidou. Eu é que sou chato. Eu é que não deveria estar aqui. Me perdoe, mas não vou conseguir ficar na sua festa até completar uma hora e meia! — achei que estava na hora de ser sincero.
A devota do vinagre escutou o que eu disse. O asco lhe vazava pelos olhos. Choquei a tia velha, era só o que faltava mesmo!
Luís reagiu com uma gargalhada. Ele disse que me conhecia o suficiente pra saber do meu desconforto. Me levou até a porta e agradeceu pela presença.
No fim das contas, até que esse Luís é um cara bacana.


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