As Crônicas de Artur é Uma Constante Desconstrução De Nossas Impressões Sobre Seus Personagens

Devo ter lido um ou dois livros sobre o assunto.
Foi há muito tempo. Não sou capaz de lembrar quem eram os autores, ou mesmo o que aquelas histórias possuíam de interessante para mim. A única coisa que resistiu ao longo dos anos foi o meu interesse por toda a mitologia ao redor do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda.
Muito anos depois, sou apresentado aos mesmos personagens e a mesma história, dessa vez descritos com um pouco mais de fidelidade histórica.
Bernard Cornwell é conhecido por seus romances históricos. Com razão, devo acrescentar. Ele deixa claro nos apêndices históricos que pesquisar sobre a figura mais famosa e idolatrada da Grã-Betanha não foi um tarefa fácil. São muitas as fontes. Muitas vezes confusas o suficiente para obrigar o escritor a resolver problemas de narrativa se valendo de sua liberdade poética.
As Crônicas de Artur, como ficou conhecida a trilogia, me apresentou a um Artur mais humano, cheio de dúvidas, mágoas e fraquezas mas, ainda heróico.
O maior mérito do autor é a maneira como ele consegue nos fazer mudar de opinião a respeito de vários personagens ao longo da narrativa, sempre com motivações críveis.
É difícil falar sobre a trilogia sem estragar a experiência de quem ainda não teve a oportunidade de lê-la. O que posso dizer é que os três livros giram em torno de um mesmo objetivo: manter toda a Grã-Betanha em paz com os seus reinos e livre dos Saxãos, tratados aqui como alguns dos poucos vilões absolutos da trama. Ainda assim, existe uma ou duas cenas que mostram a relação de um certo personagem leal a Grã-Betanha interagindo diretamente com saxãos em cenas tensas e ao mesmo tempo belas e profundas.
O protagonista não é o famoso rei, e sim Derfel, que nada mais é do que, adivinha, um saxão!
Em um futuro, já distante do narrado na trilogia, somos apresentados a um Derfel já idoso e maneta. Um monge cristão que não demonstra nenhum sintoma de que um dia já tenha erguido uma espada. A história de Artur é contada através de seus olhos, em uma relato feito as escondidas em um monastério sob a liderança de um bispo que personifica o que há de pior em um cristão medieval. Você não encontrará problemas para entender as motivações do bispo que persegue Derfel como um cão atrás de um esquilo, já que hoje em dia existem certas figuras cristãs que se mantém fiéis a seus antepassados medievais.
O cristianismo é apresentado como um câncer que aos poucos tenta corroer a Grã-Betanha e reinos vizinhos através de figuras pouco simpáticas ou tolerantes, o que é historicamente crível. Em contraponto, há a figura de Galaad, um de meus personagens favoritos. Ele é um dos poucos bons cristãos dessa história. Um cavaleiro leal a seus aliados, cheio de honra e coragem e que jamais se vale de sua crença para desrespeitar os demais. Um dos diálogos mais interessantes dos três livros se dá entre ele e Merlim, em uma ocasião onde este segundo o questiona a respeito de uma busca, supostamente pagã.
Isso é apenas um exemplo do que você encontrará nessa saga. É como se o autor tentasse nos dizer: “Ei, ninguém está certo o tempo todo, e até mesmo um relógio quebrado está certo duas vezes por dia”.
Nem o próprio Merlim, personagem apresentado como a personificação da sabedoria em outras versões dessa história, está livre de seus equívocos ou exageros. Nem o próprio Artur acertou em todas as suas decisões causando, ainda no primeiro livro, um grande problema diplomático dentro de suas próprias fronteiras devido a uma decisão precipitada.
Não menos importante do que as muitas camadas de cada personagem, coloco a própria personalidade dos mesmos. Depois de um tempo, já é possível reconhecer ou prever as reações de alguns deles. É fácil se sentir como um cavaleiro aliado ou um druida conhecedor de todas as lendas. É como se estivéssemos lá, ao lado de Tristão, Artur, Galaad, Derfel e muitos outros.
Vale um destaque especial para Guinevere, Ceinwyn e Nimue. Três personagens femininas que possuem grande importância para a trama de formas diferentes, mas sempre lembrando aos homens do erro que seria subestimá-las.
As Crônicas de Artur flerta com a fantasia na medida certa. Uma história profunda, complexa, sem respostas fáceis ou heróis com armaduras brilhantes. Aliás, o único herói com armadura brilhante de toda a trama consegue a rara unanimidade de ser odiado por todos os cavaleiros de Artur.
Uma menção especial ao terceiro livro, que traz uma das cenas mais cruéis e amedrontadoras que já vi ocorrer em minhas leituras.
O Rei do Inverno, O Inimigo de Deus e Excalibur são três livros indispensáveis para quem se interessa por uma boa fantasia leve com uma trama complexa, que o fará rever seus conceitos a respeito de quase todos os personagens durante a leitura.

Nota: 5/5

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