A Revolução Dos Bichos Nos Transforma em Animais Revoltados

A Revolução Dos Bichos (Animal Farm), foi publicado pela primeira vez em 1945, quatro anos antes do lançamento de 1984, a obra-prima de George Orwell.
Através de uma sátira protagonizada por animais de uma fazenda, Orwell consegue ser engraçado e falar muito sério ao mesmo tempo, através do que podemos chamar de uma “paródia do totalitarismo”.
O texto reflete um momento mais “simples” do autor e sua relação com a escrita. É possível enxergar um escritor amadurecendo suas técnicas com frases rápidas, conflitos e cenas que se resolvem logo, sem se estender por muitas páginas e personagens pouco explorados. 
É verdade que A Revolução Dos Bichos não exigia um aprofundamento muito grande dos personagens, mas ainda assim, apesar do processo de maturação da escrita de Orwell, sobrou espaço o suficiente para o que o autor tinha de mais marcante: a reflexão.
Assim como sua já citada obra-prima, essa comédia animalesca também possui uma proposta de muito clara de trazer uma reflexão ao leitor, mantendo as características de “verdades cruéis” sendo ditas e conclusões realistas, distantes dos clássicos heróis hollywooodianos, que parecem alcançar absolutamente tudo o que querem ao fim de sua jornada, se tornando reconhecidos por isso no processo.
Apesar da pouca atenção dada aos personagens, existe sutileza o suficiente para enxergar diversos perfis políticos dentro da trama. Talvez você seja como Napoleão, o porco com argumentos mais fracos, mas com maior “poder militar”. Talvez você se identifique mais com Bola-de-Neve, que se vale de sua eloquência para angariar seguidores. Existe também Sansão, o cavalo que possui baixa capacidade de raciocínio, mas uma força extraordinária bem como uma disposição incansável para se construir um mundo melhor para ele e seus companheiros. Sem qualquer tipo de cerimônia, eu me identifico com Benjamim, o burro que até enxerga a verdade por trás dos protocolos camuflados da fazenda, mas que não é capaz de encontrar disposição ou acreditar em sua capacidade de fazer algo que melhoraria a condição política dos bichos.
Ainda vale citar o Velho Major, com seu belo discurso idealista que inspirou toda a fazenda no primeiro capítulo.
No fim das contas, o livro nos transforma em animais para nos mostrar nossas reais intenções e atitudes diante de um cenário político à beira do totalitarismo. Você está no livro, escolha o animal que melhor te representa.
A leitura é rápida e bem divertida. Possui ainda um enorme potencial de fazer com que você reflita sobre sua mensagem durante dias, o que só aumenta ainda mais o valor da obra. 
O texto é muito bem resolvido e, apesar de ainda não refletir o total amadurecimento de George Orwell como escritor, é sem dúvidas um livro obrigatório para quem gosta de refletir sobre o comportamento humano.
Como uma última recomendação, se você ainda não leu nada do autor, acredito que A Revolução Dos Bichos é uma excelente porta de entrada e um ótimo preparo para a catarse literária de 1984.

Nota: 4/5

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