Resenha: Persépolis, de Marjane Satrapi


Marjane Satrapi foi a primeira iraniana a lançar uma graphic novel. Isso já seria motivo o suficiente para você dar uma chance a Persépolis, mas seria injusto - e negligente - de minha parte não discorrer sobre os demais méritos desta HQ.
A protagonista é a própria autora. Ela nos conta a respeito de sua infância e das dificuldades de crescer no Irã em meio a uma revolução religiosa, particularmente cruel às mulheres. Em contrapartida, Marj é uma menina contestadora, não aceita qualquer coisa calada. Possui uma grande sede por ideologia e luta política. Seus pais são os grandes responsáveis pela educação crítica que recebe, ensinando sempre a não acreditar nas informações divulgadas pelo governo ou pela mídia.
Tudo começa com o véu. O novo regime religioso de seu país a obriga a usá-lo na escola. Bombardeada com livros desde pequena, ela desenvolve suas próprias crenças e senso crítico, o que a faz se sentir insatisfeita e desconfiada com o regime de seu próprio país.
Crescer é difícil. Se descobrir é ainda mais. Fazer tudo isso quando se é uma menina crescendo em um regime que subjuga as mulheres é, no mínimo, mais difícil e desafiador.
A protagonista e sua jornada me cativaram desde a primeira página. Eu soube que aquela era uma história que nunca seria esquecida.
Do ponto de vista técnico, a autora escolheu uma narrativa recheada de explicações e narrações, direcionadas ao leitor. É como se ela quisesse dizer diretamente a seus leitores como foi sua vida no Irã.
Eu não costumo gostar de narrações em HQs, mas às vezes elas são tão bem empregadas que acabam agregando valor a narrativa. Foi exatamente isso o que aconteceu em Persépolis.
O contexto histórico/político da trama é confuso, não que isso seja culpa da autora. Os conflitos na região do Irã sempre foram muito confusos, intensos e delicados. É difícil entender as motivações dos governantes, já que eles trocam de aliados e discurso conforme lhes convém. A única coisa que fica clara é que a religião, ferramenta utilizada para manipular a população, é a última coisa com a qual seus governantes estão preocupados. Na verdade, essa descrição pode ser designada a qualquer governo do mundo, se pararmos pra pensar.
Pela execução honesta, bela e visceral, pela relevância de uma história como essa sob o ponto de vista de uma menina e pela importância da reflexão política, Persépolis é o tipo de obra que eu chamo de indispensável.

Nota: 5/5

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