Material Recolhido na Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2016


Eu e minha esposa adquirimos algumas publicações no primeiro dia da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, tanto quanto nossos bolsos permitiram.
Com o maior orgulho de poder ler e comentar a respeito do trabalho de artistas independentes ou de editoras menores, trago uma breve resenha a respeito das publicações que já consegui ler. Deixo também este espaço aberto para todos os artistas que estiverem no evento e quiserem ter suas obras resenhadas COM HONESTIDADE aqui.

Tibazine #1 e #2 - Marcelo Oliveira e Atlan Coelho
(Estúdio Três Linhas)


O material mais nostálgico que vi pelos corredores da bienal. Homenageando as publicações underground encabeçadas por, mas não limitadas a Angeli, Glauco e Laerte, o Tibazine adota o formato de fanzine para publicar qualquer tipo de conteúdo subversivo e escrachado. Com uma proposta mais despojada, os autores não perdoam nenhuma faceta do comportamento curitibano. Em alguns momentos há a intenção de fazer o leitor refletir a respeito de certas hipocrisias. Em outros, o objetivo é apenas satirizar nossas próprias desgraças. Dou um destaque especial para as capas, que não devem nada a publicações maiores em termos de orçamento.

Nota: 3,9/5

Harmatã - Pedro Cobiaco
(Editora Mino)


Uma HQ repleta de experimentalismos. Pedro Cobiaco explora uma história simples, com o tema da saudade. Os diálogos são profundos. Fala-se muito, muitas vezes usando poucas palavras. A arte cumpre seu papel em uma história onde os personagens estão a mercê de seus sentimentos - e com medo disso.  O problema, para mim, encontra-se no ato final. Eu não sou o cara conhecido por amar poesias. Também não sou muito fã de certos artifícios alternativos. No meio da história há uma carta. Esta carta é física, está presa a HQ. O leitor precisa abrir o envelope, desdobrar o papel e, após a leitura, devolver tudo a seu lugar. Não é o meu estilo de publicação, prefiro ler tudo em formato digital quando posso escolher, mas também não é algo que prejudica a história. A parte mais difícil de engolir foram os versos poéticos. Mas admito que este é também um problema de gosto pessoal. Se você gosta de histórias com alto teor dramático, diálogos que carregam a trama e publicações alternativas, leia Harmatã.

Nota: 3,5/5

Aokigahara - André Turtelli Poles e Renato Quirino
(independente)


Em uma conversa com André Turtelli Poles, o roteirista, ele me revelou que a ideia para a HQ surgiu através de uma dessas listas de internet com “os lugares mais assustadores do planeta”. 
A famosa floresta japonesa de Aokigahara é um lugar muito escolhido pelos suicidas. Eu, como um suposto escritor que sou, admito que gostaria de ter enxergado potencial para uma história aqui. André foi mais rápido no gatilho e trabalhou em um roteiro que aborda o suicídio sem romantizar o ato ou condenar o suicida. A história tem suas “barriguinhas” e, apesar de um final significativo, senti que algumas páginas adicionar poderiam ter me tocado mais. 
Agora, falemos sobre a arte de Renato Quirino. Simplesmente impecável. Não há um só quadro gratuito, e cada um deles é uma obra de arte por si só. A floresta, mais do que qualquer outro cenário, é viva. O traço torna tudo tão próximo e assustador, apesar de não ser uma história de terror. Não sei se a ausência de cores foi uma decisão criativa ou apenas uma limitação orçamentária. Em qualquer um dos casos, o artista soube tirar o melhor proveito da situação.

Nota: 4/5

O Diabo e Eu - Alcimar Frazão
(Editora Mino)


Eu nunca havia lido uma HQ sem qualquer diálogo ou onomatopéia que fosse tão poderosa em sua linguagem. O autor escolheu o misterioso passado de Robert Johson, lenda do blues que faleceu antes mesmo de ficar conhecido. A história envolvendo o músico e um suposto pacto com o diabo em uma encruzilhada foi o ponto de partida para esta HQ. 
São duas histórias que envolvem, de formas diferentes, a vida do bluesman em conflitos diabólicos.
A arte é o que há de mais incrível aqui. O projeto gráfico não fica atrás. O traço possui uma certa “sensibilidade musical”, se é que isso faz algum sentido.
O autor sabe contar uma história abusando dos recursos visuais, sem pegar emprestado a facilidade das palavras e, portanto, sem correr o risco de fazê-las sobrar em sua narrativa. Mas há riscos, é claro. É difícil também se fazer entender em um roteiro que não usa palavras e, ainda assim almeja contar duas histórias poderosas em seus dramas.
Correndo o risco de soar piegas ou até mesmo puxa-saco, sem qualquer vergonha eu declaro minha vontade de um dia ter um roteiro meu a altura de ser ilustrado por esse cara.

Nota: 5/5

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Um comentário

  1. O nosso muito obrigado pelo elogio ao Tibazine, meus parceiros de longa dada merecem!
    Aliás, fica aqui o convite para todos vocês divulgarem seu HQ ou qualquer material afim no grupo Lendo a Nona.
    Abraços do Ser Cabral

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