Material Recolhido na Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2016 - Parte 2


Para a segunda parte do meu compilado de resenhas da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, trago cinco publicações com formatos, estilos e propostas diferentes.
Vale lembrar que estou resenhando apenas material que tomei conhecimento durante esta bienal e tive a oportunidade de ler durante os dias de evento, em sua edição de 2016.

Entre Parênteses - Well Junio
(Independente)

Foto: Antonio Eder
Em um bate-papo, o autor me revelou que quando começou a fazer quadrinhos, sua intenção era fazer o leitor rir. Mais tarde, quando o estilo mais filosófico e reflexivo já estava consolidado, ele lançou o Entre Parênteses. Este é um exemplo claro de que, não raro, as intenções iniciais de um artista acabam sendo suprimidas por uma necessidade ainda mais profunda em sua alma.
Nesta publicação você irá encontrar quarenta tiras, totalmente independentes umas das outras, que pode até fazer rir vez ou outra, mas que tem um potencial de reflexão ainda maior.
Com um texto preciso, sem sobras, Well Junio conseguiu me arrancar reações diversas com cada uma de suas tiras, mas nunca a indiferença. São sentimentos retratado com precisão e as vezes explicados em poucos quadros. Apesar de sua obra ser uma HQ, eu ressalto que o trabalho de escrita do autor está muito próximo da maturidade. A única coisa que faz a obra perder potência é o fato de serem tiras, e não uma narrativa maior. Ainda assim, vale a leitura.

Nota: 4/5

Mama - Douglas Cruz
(Ursereia)


Com um visual extremamente colorido e uma narrativa amplamente inspirada na famosa “era de ouro” dos quadrinhos, temos aqui um spin-off da webcomic Hank.
Confesso que a obra começou com um recurso que eu não costumo gostar, onde o autor nos explica o passado da protagonista através de narrações. Rola um excesso de exposições na primeira parte da HQ, o que me deixou preocupado e até mesmo um pouco desanimado com os rumos que a história iria tomar.
Para minha alegria, tudo isso muda após o prólogo. Alguns diálogos soaram maniqueístas, onde evidencia-se que a heroína é boa e o vilão ruim. Isso teria me incomodado se não fosse pela revelação que ocorreria poucos quadros adiante.
Preciso tirar o chapéu para Douglas Cruz no quesito “motivações dos personagens”. Tudo aqui é muito crível. O embate final e suas decisões são carregados de conflito, pesar e decisões difíceis. De repente, o vilão visivelmente malvado tem uma razão para ser assim. E a razão funciona. Pra completar, o arco da protagonista é competente. Ela muda algumas de suas crenças no decorrer da trama, e isso também funciona.
De brinde, anda temos um universo fantástico repleto de influências a super-heróis, RPG e até mesmo Animes (os golpes dos personagens tem nomes e eles os gritam ao utilizá-los).

Nota: 3,9/5

Dodô - Felipe Nunes
(Editora Mino)


Uma graphic novel repleta de metáforas. O subtexto empregado pelo autor é incrível. Em vários momentos se percebe duas histórias sendo contadas ao mesmo tempo. No final, uma terceira se revela, fazendo tudo ficar ainda mais sentimental.
Com cenas cativantes e um traço competente, Felipe Nunes nos conta a história de Laila, uma menina que está passando por uma fase difícil. De repente, ela ganha uma novo amigo. Um pássaro estranho que invade sua casa e logo conquista sua afeição. Por trás de tudo isso, a HQ esconde uma criança vivendo um drama muito grande em consequência de péssimas escolhas feitas por alguns dos adultos a sua volta.
É possível notar aqui um artista em crescimento. Um desses que parece gostar dessa coisa de tocar o coração das pessoas, sabe?
Ficarei de olho no que Felipe Nunes fará a seguir.

Nota: 3,5/5

Apocalipse, Por Favor - Felipe Parucci
(Independente)


Pra começar a resenha fazendo você se arrepender de ter passado pela mesa de Felipe Parucci e ignorado esta graphic novel: ela é obrigatória para qualquer leitor de HQ.
Aqui acompanhamos pequenas tramas de vários personagens que, de alguma forma, acabam interferindo na vida uns dos outros. O principal é Arthur, um lobo.
A narrativa é ácida, com momentos hilários. Houve pelo menos dois em que eu precisei interromper minha leitura para dar uma longa gargalhada. A forma escrachada como o autor expõe alguns dos elementos de seu universo é muito revoltada e sarcástica ao mesmo tempo. Uma característica típica de um artista que veio do underground (ou ainda está nele) e, com o coração entupido de revoltas e críticas, só vê uma forma de colocar tudo isso pra fora.
É impressionante o domínio que Felipe tem da narrativa. Ele inverte a linha temporal quando necessário, brinca com ângulos, abusa das expressões dos personagens e, o mais importante, costura tudo isso com um roteiro muito bem acabado.
Apesar de ser um livro grande, não é cansativo. Não há cenas insípidas criadas apenas para aumentar a quantia de páginas. Tudo aqui está muito bem encaixado e serve a história de alguma maneira.
Os personagens principais são profundos, possuem boas motivações e uma história dramática que é capaz de mudar o tom da obra ao se aproximar da conclusão. O que antes era algo crítico, repleto de ironia e sátiras, de repente se transforma em uma história sobre o desespero interior que pode se esconder em nossa mente.
E o final não poderia ser mais significativo.

Nota: 5/5

Uma Noite em L’Enfer - Davi Calil
(Editora Mino)


Aqui temos uma grande homenagem a alguns dos pintores mais importantes da história da arte, e a uma outra figura que não mencionarei, para não estragar a surpresa.
A graphic novel é livremente inspirada no livro Noite na Taverna, de Álvarez de Azevedo. A premissa é simples: um grupo de pintores se reúne uma noite na famosa taverna L’Enfer e fazem uma competição para ver quem é capaz de contar a historia mais assustadora. Cada um narra algo isolado, sem qualquer ligação com as demais histórias. Por trás de tudo isso, ainda há uma outra trama sendo desenrolada, e a forma como foi revelada me remeteu a alguns dos cineastas mais habilidosos e experiente que consigo me lembrar.
Dentre todos os méritos da versão de Calil, que não são poucos, o que mais me saltou aos olhos foi o impressionante trabalho de pesquisa do autor na hora de retratar as histórias de cada um dos pintores. Não sou um grande entendido de cores ou mesmo de ilustração em si, mas é nítida a mudança de palheta enquanto os pontos de vistas são alterados na HQ.
Esta graphic novel não é só uma homenagem a alguns dos grandes artistas do passado, mas também um presente aos artistas e amantes da arte que dividem conosco o presente.

Nota: 4,5/5

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