Material Recolhido na Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2016 - Parte 3


Com o fim da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, edição de 2016, trago minha última postagem resenhando todo o material que fui capaz de comprar ou que me foi gentilmente cedido pelos autores.

Guia Culinário Do Falido - Leo Finocchi, Marília Bruno, Samanta Flôor, Felipe 5horas e Fernanda Chiella.
(Balão Editorial) 


A impressão que tive é que esta publicação foi uma baita brincadeira entre seus autores. 
De forma despretensiosa e muito bem-humorada, o time de quadrinistas que compõe esta HQ se reuniu para fazer uma paródia dos inúmeros programas gastronômicos que estão em alta.
Eles não quiseram fazer um roteiro reflexivo, que mudasse a perspectiva das pessoas. Também não se preocuparam com a arte final, optando por ilustrações mais simples do que estão acostumados a fazer.
Parece crítica, mas não é. Isso tudo funcionou aqui. O fato da publicação não se levar a sério em nenhum momento fez com que o guia se tornasse uma leitura ágil, divertida e muito criativa.

Nota: 3,5/5

Maravilhoso - Hiro Kawahara
(Polvo Rosa Books)


O autor começa com um prefácio onde explica que criou o protagonista quando ainda era adolescente, cheio de palavrões, piadas grosseiras e um non-sense sem freios.
Ao lançar a HQ de seu personagem mais antigo, Hiro Kawahara optou por manter todas estas características de sua concepção e alertas aos leitores para que embarquem na loucura do Homem-Maravilhoso.
Esta HQ é tão maluca que eu terminei de ler sem ter certeza do que tinha acabado de acontecer. O roteiro é tão insano e cheio de referências distintas que se torna totalmente imprevisível. Minha cena favorita (sem spoilers) se dá próximo do fim da história, quando o protagonista decide fazer algo que CLARAMENTE traria consequências irreversíveis. A motivação não poderia ser mais estúpida e engraçada.
A arte é irretocável. O traço é cheio de referências, mas o que se sobressai é a personalidade de Hiro. Ele desenvolveu ao longo dos anos uma característica própria e vê-la empregada em sua primeira HQ me fez querer explorar o que ele produzirá a seguir.

Nota: 3/5

Dois Lados - Well Junio e Antonio Edison Jr.
(Reticências e Tome Isto!)



O cenário independente de quadrinhos, por natureza, permite que os autores explorem formatos diferentes, narrativas não muito convencionais ou ideias que as grandes editoras poderiam não considerar vendáveis. Quando o artista resolve fazer um fanzine, o nível de liberdade e criatividade acaba sendo multiplicado, o que permite muita experimentação. As vezes funciona, as vezes não. Sempre rende ao artista um enorme montante de aprendizado.
A ideia aqui era lançar um fanzine com duas histórias, de oito páginas cada. Cada uma começa de um lado da publicação, o que resultou em duas capas distintas. Os artistas resolveram partir do mesmo princípio: uma moeda capaz de realizar um desejo. Cada um deveria criar sua HQ inspirado nessa premissa, sem saber o que o colega iria apresentar.
A história de Well Junio demonstra um domínio dos diálogos sensíveis e ao mesmo tempo cativantes. Uma pequena aventura entre dois amigos, com uma inocência e imaginação digna das crianças.
Antonio Edison Jr. Optou por uma história mais conflitosa, com um personagem prestes a aprender uma poderosa lição em um desfecho ousado e, portanto, admirável.
Na primeira história eu senti falta de um pouco mais de conflito. Na segunda, rolou um pequeno excesso de palavras. Dois deslizes perdoáveis diante de uma publicação tão carismática - e criativa.

Nota: 4/5

Se Meu Cão Falasse Tudo Seria Poesia - Antonio Eder, Carol Sakura e Walkir Fernandes
(Dogzilla Studio)


Esta publicação é simplesmente incrível. Uma capa muito bem desenhada, acompanhada de um projeto gráfico que aumenta ainda mais as qualidades da arte.
No interior, temos dez pequenas histórias produzidas pelos autores com uma temática em comum: cachorros.
Algumas fazem rir, outras emocionam. Teve uma que me assustou e outra que quase me fez chorar. Fui obrigado a ler outra vez assim que terminei, tamanho foi o impacto.
Só existem duas histórias que pareceram meio bobinhas ou desinteressantes para mim. O resultado disso tudo é a HQ mais simpática da qual tive conhecimento nesta Bienal.
Confesso não ter lido mais nada produzido por esse time de autores, mas a naturalidade das histórias revela um entrosamento que me faz apostar que eles fazem isso juntos há algum tempo.

Nota: 4/5

Chance - Samanta Flôor e Diego Cesar
(Polvo Rosa Books)


Brincando com a fantasia e o non-sense, os autores desenvolveram uma trama onde a protagonista encontra uma moeda capaz de realizar desejos ao ser jogada no ar, bastando que se escolha um desejo para cada um dos lados que cair.
O traço é suave e amigável. Casa bem com os momentos de alívio cômico. O personagens possuem características bem distintas, o que é muito interessante. Sem diálogos expositivos é possível saber muito a respeito de cada um dos três amigos que protagonizam a trama.
O non-sense não chega a ser exagerado, ainda assim ele se mostrou em uma quantidade suficiente para me incomodar e me tirar da leitura vez ou outra.
De qualquer jeito, isso é apenas um gosto pessoal meu, e não uma falha de roteiro.

Nota: 3,8/5

Astromini - Vencys Lao e Welton Santos
(Polvo Rosa Books)


Uma agradável homenagem a ficção científica pulp, que eu gosto de chamar carinhosamente de “futuro do passado”.
Aquela exploração espacial com trajes exagerados e naves nada aerodinâmicas que invadem mundos desconhecidos com toda sorte de vida animal e vegetal desconhecida. A curiosidade em descobrir o que há em cada um dos cantos do universo. O medo do deconhecido e o arrepio na espinha por desvendá-lo assim mesmo. Tudo isso faz parte das características que tornou a ficção pulp tão atraente em sua época e homenageada em nossa.
Astromini faz jus a cada uma das facetas descritas acima. Sem qualquer diálogo, nos aventuramos em um mundo desconhecido, cheio de perigos e incertezas.
A colorização de Welton Santos é sombria e carregada de suspense. A história fica densa e claustrofóbica em algumas cenas, tudo isso é coroado com um desfecho poético.

Nota: 4/5

Os Contos do Planta nº 1 - Gustavo Ravaglio
(Independente)


Gustavo já se tornou um amigo, o que torna esta resenha ainda mais difícil do que o normal. Eu não sinto nenhum tipo de prazer em criticar qualquer obra que seja, mas tenho um compromisso com os leitores que insistem em dar uma chance as coisas que escrevo neste blog. Não posso desonrá-los apenas com elogios repetitivos a tudo o que eu leio. Além disso, eu sou um dos maiores torcedores e incentivadores dos quadrinhos. Quero o melhor para os artistas independentes e acredito que o crescimento é importante a todos nós. Minhas palavras não necessariamente farão alguns deles crescer, mas podem fazê-los refletir acerca de traços de suas obras que passaram despercebidos a seus olhos habituados a muito trabalho e empenho.
Com isso em mente eu vos apresento O Planta.
Vamos tirar logo o que eu não gostei do caminho: não sou fã de introduções expositivas ou prefácios que tentam explicar os personagens ou características do universo que estou prestes a ler. Que tudo me seja devidamente apresentado na história. Tirando essa pequena introdução, que já começa como um obstáculo para a imersão do leitor naquele universo, quase todo o resto funciona.
Eu não vou comentar a respeito do projeto gráfico, da capa em 3D ou da arte. Qualquer imbecil é capaz de ver que esta é uma HQ feita por um artista meticuloso, em todos os aspectos.
O personagem principal é o que o nome sugere: uma planta. Mas esta planta é diferente. Após um experimento científico, adquiriu um corpo humanóide e abandonou suas raizes a perambular por aí. Juntamente com ele, alguns coadjuvantes e este universo tem o potencial de se tornarem algumas das coisas mais interessantes e criativas dos quadrinhos.
O roteiro ainda tem muito o que crescer, conforme assume o próprio autor, mas promete algo grande. Nos deixa na expectativa. Curiosos para conhecer mais daquele universo e sermos apresentados a muitos outros personagens únicos.
Esta HQ é tão original que fica difícil até mesmo definí-la em um gênero. Tem um pouco de fantasia e ficção-científica, mas com certeza não se parece com nada que eu já tenha lido.
Eu soube que está prometida uma graphic novel deste personagem, ainda mais ousada em termos de roteiro e publicação. Como leitor eu fico na expectativa. Como amigo, sou obrigado a avisar: Gustavo, tu se meteu em uma roubada. Colocou a expectativa dos leitores lá em cima. Daqui pra frente, tudo vai ser MUITO mais difícil e desafiador. Boa sorte!

Nota: 4/5

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