Boas meninas não fazem perguntas: o meu processo



Pra quem ainda não sabe, meu novo livro se encontra em financiamento coletivo. Esta é uma postagem comemorativa devido ao alcance de 50% da meta. Ainda tem um longo caminho pela frente e continuo contando com sua ajuda pra divulgar o projeto em suas redes sociais. Enquanto isso, decidi contar a história por trás deste livro e tudo o que aconteceu até chegarmos aqui.

A primeira versão dessa história nasceu em 2012/2013. Na época eu não tinha decidido que seria um escritor, portanto não me preocupava em estudar narrativa e escrita criativa. Escrevia ocasionalmente, de forma intuitiva mesmo. Essa história nasceu em formato de conto e seria publicado originalmente em um fanzine produzido por mim mesmo. O negócio é que o projeto acabou sendo engavetado por várias razões. A principal: eu havia passado os dois anos anteriores produzindo e publicando fanzines mensalmente. Eu os distribuía de forma gratuita, mais com uma intenção ideológica/filosófica do que qualquer outra coisa. Depois de dois anos, eu estava exausto. Não aguentava mais investir dinheiro em pedaços de papel que eu cansei de ver serem amassados e jogados no chão. Também vi pessoas xerocando meus fanzines e os vendendo por aí, o que me fez pensar que todo o propósito que eu tinha estava se perdendo. Não sou contra vender meus textos, mas naquela ocasião a proposta era outra. Se eu, que era o dono do projeto, os distribuía gratuitamente, por que outras pessoas se achavam no direito de vender?
Essas foram as razões práticas para o projeto ser engavetado. As razões artísticas eram ainda mais sérias: eu sabia que o texto estava ruim. Faltava alguma coisa, embora eu não soubesse exatamente o que era.
Anos depois comecei a me dedicar a escrita. Publiquei meu primeiro livro em 2016, um projeto que me levou cerca de dois anos para concluir. Entre uma revisão e outra, revisitei aquele velho conto escrito originalmente para um fanzine. Fiquei maravilhado com o quão ruim ele era. Desafiava todas as leis da lógica. Entretanto, a ideia era boa: um futuro distópico onde mulheres eram vendidas em lojas. Reescrevi o conto. Mudei muita coisa e tive novas ideias, mas ainda faltava alguma coisa. Encontrei o direcionamento que precisava quando li 1984, de George Orwell. Tinha a sensação e atmosfera que eu queria dar a minha história, mas ainda assim era completamente diferente. Comecei, então, uma longa pesquisa por livros distópicos. Havia um desafio adicional: eu iria escrever sobre personagens femininos. Na tentativa de entender melhor esse universo comecei a mergulhar na literatura produzida por mulheres. Entre as dezenas de livros que li, descobri duas de minhas autoras favoritas: Chimamanda Ngozi Adichie e Nnedi Okorafor. Também entrevistei algumas mulheres que gentilmente aceitaram me contar suas histórias de vida. Fiz tudo isso com muita paciência e atenção. Quando finalmente transformei aquele velho conto em meu  primeiro manuscrito, estava tão empolgado que levei apenas 22 dias pra concluir o trabalho. Foi o livro mais rápido que já escrevi. É claro que ainda houveram outras versões, devidamente corrigidas com a ajuda dos meus leitores beta e de minha editora, mas pouco mais de um ano depois do primeiro manuscrito eu tinha um livro totalmente finalizado.
Seria injusto não mencionar que me cerquei de mulheres para que o projeto fosse concluído. Além de minha editora, minhas leitoras beta, minhas entrevistadas, minha leitora crítica, ainda tive um extenso material de qualidade para me inspirar, dos quais cito o excelente Outras Meninas, de Manu Cunhas e uma entrevista em podcast concedida pela Talita Ribeiro, que me deu boas ideias para enriquecer a trama.
A grande lição que aprendi  com essa história é que as vezes podemos ter boas ideias e não saber como executá-las. Mais vale guardá-las para uma outra ocasião com maior preparo do que satisfazer a pressa e publicar algo que não representa sua identidade como escritor/escritora.

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2 comentários

  1. Que legal vc citar a Talita Ribeiro, eu curto muito ela! :)
    Lucão, to indo lá dar minha contribuição no Catarse agooooooraaaaa mesmo!
    Fui!

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