Mais do que a maioria tem


Eu me lembro que era muito novo quando minha mãe explicou pela primeira vez o que era racismo. Não lembro a idade que tinha e nem quais foram as palavras exatas, mas a ideia ficou gravada na minha cabeça. Mais do que isso, ela sempre tentou me fazer entender como nossa fé cristã deveria se relacionar com o mundo: “somos ensinados a amar ao próximo, logo não podemos nunca ser racistas”. É claro que a explicação foi muito mais acessível a uma criança do que essa reprodução imprecisa que fiz, mas você entendeu a ideia.
Durante toda a educação que tive de minha mãe, sempre existiu a preocupação real da parte dela em ensinar os filhos a ter senso crítico. Em um mundo que nos empurra para o conformismo, ter uma mãe que me ensinou a ser diferente é um privilégio. É mais do que a maioria tem. 
Lembro de quando vi pela primeira vez um menino de rua. Meu pai explicou o que aquilo significava, e é claro que fiquei indignado a meu próprio modo infantil. Chorei muito, queria entrar na prefeitura e ter uma conversa com o prefeito. Na minha cabeça de criança, o sistema político só não ajudava a população de rua porque não devia saber da existência deles. Alguém precisava avisar, afinal. Admito que foi ingênuo da minha parte, mas deem um desconto, eu era uma criança. Mas esse texto não é sobre mim, contei essa história porque o importante é o que veio depois: quando minha mãe soube de minha reação, devidamente relatada por meu pai, ela me abraçou, me ergueu orgulhosa e incentivou que eu sempre tivesse esse tipo de empatia. Foi o equivalente a ter entrado para um campeonato de futebol da escolinha e ter feito pelo menos dez gols de bicicleta. Eu não era bom em esportes, nunca traria esse tipo de orgulho a minha mãe. Mas sabe de uma coisa? Isso nunca foi um trauma, ela fez questão de se orgulhar daquilo que eu tinha a oferecer.
Uma outra coisa importante eram as respostas. Eu perguntava muito, como toda criança. Tinha o senso crítico mais apurado do que um menino da minha idade devido a crianção que eu vinha tendo, logo as perguntas ficavam cada vez mais específicas. Ela nunca deixou de responder nada. Nem nos assuntos considerados mais difíceis pelos adultos. Repito: é mais do que a maioria tem.
Talvez a maior lição foi uma que era pouco dita e muito vivida: a honestidade. Eu via isso nela. Aprendi que não devia mentir porque ela nunca mentia pra mim. É claro, ela chegou a conversar comigo sobre mentira, mas a lição só foi assimilada de forma eficaz depois de anos observando o comportamento dela. Cuidar de uma criança e prepará-la pra vida é um trabalho de formiguinha. Comprometimento total todos os dias para, depois de anos, ver algum resultado.
Sei que não sou nenhum bastião de justiça e virtude, mas se tenho a capacidade de enxergar meus próprios erros, devo isso a minha mãe, uma verdadeira formiga operária, que impunha o respeito de uma rainha. Por ter a consiência de que minha criação materna foi mais do que a maioria tem acesso, eu agradeço.
É claro, todos aqueles anos de comprometimento não podem ser pagos com um texto insignificante como esse, mas agradecer as pessoas é algo educado a se fazer e mais uma das mais de mil lições que aprendi com essa mulher. Por isso, eu que trabalho com as palavras, faço um agradecimento usando quase 600 delas.

Te amo, mãe.

Veja Também

Um comentário

  1. Um texto pra se guardar na gaveta da alma. Pari homens de verdade. Já me basta.

    ResponderExcluir