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7 de junho de 2018

10 começos de livros que marcaram minhas leituras

Ilustração: Nicolás

Tenho uma relação muito próxima com começos de livros. A primeira frase, para ser mais específico, é algo que sempre leio com uma certa expectativa. Quase sempre esta frase é algo esquecível, mesmo que a leitura acabe se revelando agradável. 
Às vezes a frase tem a potência exata para se tornar inesquecível, trazendo algum elemento intrigante que me conquista como leitor imediatamente.
Como autor procuro sempre levar isso em consideração na hora de escrever minhas histórias. Se sou bem sucedido com minhas primeiras frases não ouso responder, preferindo deixar a você a avaliação.

-Pega o seu dinheiro e enfia no cu!

Começo de Todos os mentirosos, lançado em 2016.

Eu queria apresentar um personagem revoltado no seu maior momento de fúria e desespero. Não estava preocupado em conquistar a simpatia dele ante ao leitor, e sim em mostrar quem era esta pessoa.

Lúcia programou a autodestruição.

Começo do conto O destino de Ayra, lançado em 2018.

Aqui tentei brincar com o senso de urgência. O leitor começa a história sabendo que algo irá ser destruído.

O pai a deixou na loja. Marina se tornou um produto.

Começo de Boas meninas não fazem perguntas, a ser lançado ainda em 2018.

Neste caso eu tentei sufocar o leitor logo no começo. Passar a sensação de ausência de direitos na qual minha protagonista vivia.


Tá bom, eu admito que neste último eu "roubei no jogo" e usei duas frases ao invés de uma, mas você entendeu o que quero dizer. Começos importam.
Para ilustrar melhor, separei alguns começos de livro que marcaram minhas leituras. Tentei me distanciar dos mesmos começos citados em todas as listas por aí, embora alguns títulos foram simplesmente impossíveis de ser ocultados em minha lista. Vale dizer que esta não é uma lista definitiva, e sim apenas um compilado dos começos que me marcaram organizados em ordem de preferência.


Esta noite matei mais um computador.
Os dias da peste, de Fábio Fernandes

O grande representante brasileiro. Não quero dar a entender que não valorizo a nossa literatura. Se você prestar atenção vai notar que esta lista está composta por autores e autoras de várias nacionalidades e nenhum deles foi escolhido devido a suas origens, e sim ao impacto que sua frase inicial causou em mim. Este começo me trouxe uma sensação de desconforto e desconfiança que adorei logo de cara: como alguém pode "matar" um computador? O livro responde.

Numa toca no chão vivia um Hobbit.
O hobbit, de J. R. R. Tolkien

O hobbit é uma criatura fantástica amplamente difundida  na cultura pop hoje em dia. Quando li este começo pela primeira vez eu nunca tinha ouvido falar essa palavra antes. Me deixou profundamente curioso e fascinado com o universo criado por Tolkien, isso em apenas uma frase.

No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército.
Guerra do velho, de John Scalzi

Essa dispensa maiores comentários. A curiosidade e estranheza são muito presentes aqui.

Anthony Davis - uma das duas únicas pessoas reais em uma cidade de 20 milhões - pegou o burrito entregue por seu parceiro.
Snapshot, de Brando Sanderson

Esta é uma tradução livre, feita por mim. O livro, infelizmente, não está disponível em português. Note como os elementos de estranheza estão muito presentes nos exemplos desta lista. Aqui ele se repete outra vez apresentando um personagem que representa 50% da população de pessoas reais de uma cidade de 20 milhões de habitantes.

Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier

Neste exemplo as coisas começam a mudar. O que me marcou aqui foi a frase longa que apresenta um cenário muito rico e, com poucas palavras, diz muito sobre a vida familiar da protagonista. Um raro caso que conquistou minha empatia já no começo.

As coisas começaram a se deteriorar lá em casa quando meu irmão, Jaja, não recebeu a comunhão, e Papa atirou seu pesado missal em cima dele e quebrou as estatuetas da estante.
Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

Nesta frase o que me pegou foi o conflito com resultados violentos por uma razão religiosa. Note que autora também deixa claro que as coisas começaram a se "deteriorar" por causa disso. Há aqui uma promessa de que o texto irá revelar um lar em declínio. 

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.
Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez

Nesse caso fui pego pela melancolia e por duas informações intrigantes: o pelotão de fuzilamento e o "conhecimento do gelo" como algo marcante na vida do personagem. Isso revela uma história cheia de sofrimento que se passou há muito tempo atrás. E isso é feito já na linguagem que irá acompanhar todo o texto.

Ao despertar de um sonho inquieto, certa manhã, Gregor descobriu que se havia transformado num gigantesco inseto.
A metamorfose, de Franz Kafka

Um dos começos mais famosos e citados de todos. Kafka teve também outros começos inesquecíveis, mas é impossível deixar de fora a abertura de sua obra-prima. O surreal me fisgou.

O céu sobre o porto tinha cor de televisão num canal fora do ar.
Neuromancer, de William Gibson

Embora seja um começo datado (canais fora do ar não são mais chuviscados hoje em dia), me trouxe uma sensação de que o mundo tecnológico havia invadido a vida das pessoas de forma irreversível. Quem leu o livro sabe que esta frase resume bem o cenário criado por Gibson, mesmo que não seja algo que dê uma pista da trama.

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