Nunca ganhei nenhum tostão com nenhum livro em todos estes anos, diz Cristiane Serruya, acusada de plagiar mais de 30 autores

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Fiquei intrigado quando soube de um caso onde uma escritora brasileira estava sendo acusada de plagiar mais de trinta autores. Além do número, que já chama atenção, também me despertou o interesse porque esta é minha área. Sou escritor. Foi quando comecei a cavar.

Quando a história explodiu

Courtney Milan é uma das personagens principais de toda essa trama. Courtney é uma autora americana bem-sucedida, com centenas de milhares de cópias de seus livros vendidas. Ela escreve histórias românticas e possui grande respeito dentro do gênero, já tendo inclusive ganhado o prêmio RITA em 2017 na categoria “Romance Novella”. O RITA é considerado a principal premiação para obras literárias românticas nos Estados Unidos.

Cristiane Serruya é uma infringidora de direitos autorais, plagiadora e uma idiota

Este o título da postagem feita por Courtney Milan no dia 18 de Fevereiro, quando tudo começou.

O texto de Courtney não é nada amigável. Ela faz questão de deixar claro sua frustração e raiva, além de expor cinco trechos que considera terem sido plagiados por Cristiane Serruya e termina o texto fazendo exigências diretas e claras a Cristiane. Ela pede que, além de recolher as cópias de “Royal Love”, o livro que gerou toda essa primeira leva de acusações, Cristiane também faça uma contabilidade exata de quanto ganhou com este livro. “Não é seu [o dinheiro], e você não deve gastá-lo”, diz Milan, que também exige um pedido público de desculpas e termina suas exigências com a seguinte frase:

Em troca, por fazer tudo isso, você terá a satisfação de que você está começando a fazer a coisa certa após um período de grande idiotice. Ficou claro?

É claro que a história ganhou as redes sociais em pouco tempo, já que Courtney Milan tem uma grande base de leitores que a ajudaram a espalhar a notícia do suposto plágio através da hashtag #copypastecris, que em tradução livre significa algo como “a Cris que copia e cola”.

Não demorou para que outras autoras também começassem a desconfiar que foram plagiadas, o que aconteceu com Tessa Dare, que escreve dentro do mesmo gênero e também já possui uma carreira consolidada e é muito respeitada.

Na manhã do dia 19, a protagonista entra na história. Cristiane Serruya é uma autora brasileira, reside no Rio de Janeiro e trabalha como advogada. Apesar de diversos títulos publicados em inglês, o único trabalho de Cristiane disponível em português é um livro de filosofia intitulado “O Homem Moderno: Uma divagação filosófica sobre a banalidade maléfica dos atos cotidianos”. Na pequena biografia de Cristiane que acompanha todos os seus livros, descobri que ela estudou na França, Itália, Inglaterra e Suíça. Se graduou em direito e tem até um mestrado. A biografia também informa que ela ganhou diversos prêmios por seus livros românticos.

Cristiane reagiu aos comentários feitos por Courtney Milan e Tessa Dare diretamente no twitter. Os prints abaixo foram tirados de uma matéria no site Smart Bitches Trashy Books e traduzidos livremente por mim.


Tessa Dare: Eu estou literalmente em 9% de um livro “por” Cristiane Serruya (Royal Love), e encontrei texto plagiado de pelo menos 5 outros autores. #copypastecris

Cristiane Serruya: Uau, uau, uau. Eu acabei de acordar com isso. Como eu poderia estar plagiando 5 autores? Eu amo seus livros, Tessa Dare, e eu sou uma advogada. Eu nunca faria algo assim.

NOTA MINHA: Perceba a menção de “Royal Love”. É o livro de Cristiane Serruya acusado de ter trechos plagiados de 5 autores.


Courtney Milan: Tudo bem pessoal, é hora de nomear e envergonhar. Vamos ouvir um grito para Cristiane Serruya, infligidora de direitos autorais, plagiadora e grande idiota, que arruinou o meu dia e provavelmente mais do que isso plagiando “The Duchess War”.

Vocês todos sabem que eu sou muito cética com alegações de plágio que são apenas coisas como “eles possuem alguns detalhes em comum”. Esta não é uma destas alegações. Não. Cristiane Serruya copiou passagens inteiras.

Cristiane Serruya: Bom dia, Courtney eu acabei de acordar com isso e estou atônita. Eu nunca, jamais faria isso. Estou na escrita há alguns anos e também sou advogada. Nós poderíamos talvez conversar?

NOTA MINHA: Courtney menciona seu próprio livro “The Duchess War”, que teria sido um dos plagiados.

Pouco depois, Cristiane postou em seu twitter a seguinte explicação.


Cristiane Serruya: Acabo de acordar com essas notícias angustiantes de que meu trabalho contém plágio de outros autores. Estou retirando todos os trabalhos que fiz com um ghostwriter no Fiverr - que, aliás, encerrou sua conta - até eu ter certeza de que isto foi resolvido.

Cristiane menciona aqui o Fiverr, que é uma plataforma para contratação de freelancers de diversas áreas, não apenas do meio editorial. Os profissionais podem criar suas contas e os contratantes podem criar anúncios. Repare que Cristiane também alega ter contratado um ghostwriter através do Fiverr. Para quem não está familiarizado com o termo, um ghostwriter nada mais é do que um autor/autora que é pago para escrever, co-escrever e/ou consertar um texto escrito por alguém sem ter seu nome mencionado nos créditos. É um serviço comum no mercado editorial prestado por diversos autores profissionais. Existe uma segunda polêmica levantada por essas acusações onde várias pessoas estão se posicionando contra o uso de ghostwriters. Quero lembrar que esta não é uma prática ilegal e não necessariamente configura qualquer tipo de charlatanismo.

Entrei em contato com o Fiverr explicando o caso de Cristiane e perguntando o que ela poderia fazer para se proteger, caso suas alegações sejam verdadeiras. A resposta oficial foi a seguinte:

Quando alguém contrata um serviço no Fiverr, o pedido é criado, e você tem o número do pedido e toda a conversa, com todo o material incluído como prova.

O porta-voz do Fiverr também informa que a plataforma funciona de forma independente de seus freelancers. Cada prestador de serviço é responsável por seu próprio atendimento e, quando for necessário, arcar com qualquer prejuízo que tenha causado ao contratante.

O caso de Cristiane Serruya é mais delicado porque ela alega que o ghostwriter contratado deletou sua conta. Ainda assim, segundo o porta-voz com quem conversei, ela deve possuir todos os registros da transação e os arquivos como prova para se defender.

Nesse ponto Cristiane Serruya estava sendo acusada de ter plagiado 5 autores, o que já é um número bem grande. Mas os leitores começaram a verificar essas informações. Na própria hashtag #copypastecris no twitter você irá encontrar inúmeros prints mostrando textos originais lado a lado com trechos de livros de Cristiane Serruya. Para tentar organizar melhor essas informações, a autora Jenna Loise Skinner criou uma thread no twitter com uma lista de todos os autores supostamente plagiados que foram encontrados em conjunto pela comunidade de leitores. O site Caffeinated Fae decidiu criar uma postagem (em inglês) com o mesmo propósito, e está atualizando a lista diariamente. Até o momento do fechamento deste artigo estão registrados na lista de supostos plagiados 39 livros, 29 autores, 2 artigos, 2 receitas, 1 website e uma história do Wattpad.

O nome na capa pode não ser o autor

Neste ponto de minha pesquisa a história já estava grande demais e avalia-la por apenas por um ângulo seria perigoso e injusto. Para entender melhor a dimensão dessas acusações eu precisaria conversar com outras pessoas. No próprio Twitter fui capaz de encontrar pessoas dispostas a conversar comigo sobre o assunto.

Uma delas foi Elisa Doucette que comentou um dos tweets dizendo ter conhecimento de uma prática de mercado parecida com a que Cristiane, supostamente, estaria usando. Elisa trabalha com edição de texto de autores autopublicados, ministra palestras e também presta orientação a respeito de estratégia de lançamentos. Quando a questionei sobre tal prática de mercado ela respondeu:

Autores autopublicados me disseram (e, sejamos honestos, se gabaram um pouco) sobre seu ‘novo modelo de negócio’, que envolve contratar de um a cinco ghostwriters para escrever livros usando seu nome, os quais eles irão autopublicar.

Elisa ainda deixa claro que essa informação surgiu em algumas conversas no último ano. Sua opinião profissional sobre o assunto é um pouco crítica a esta estratégia.

Entendo que o objetivo é lançar o máximo de conteúdo possível, o que me leva a questionar um pouco este modelo, já que controle de qualidade não é uma prioridade. Coisas como plágio, escrita abaixo da média e erros de prova certamente iriam aparecer quando a velocidade e o volume são o foco.

Doucette também defende que esta prática não é algo necessariamente ruim, se o foco principal forem as vendas e a fama.

Isto apenas deixa várias formas do projeto ser executado de forma muito errada.

Elisa também ressalta que ghostwriters normalmente não são baratos.

Isso é por que vocês os paga para abrir mão de seus direitos autorais.

O que tem a dizer os profissionais que trabalharam com Cristiane?

Ainda no dia 19, Courtney Milan faz uma nova postagem em seu twitter alegando ter sido procurada por dois ghostwriters que teriam trabalhado com Cristiane. O primeiro deles teria postado um comentário na postagem original de Courtney, aquela mesma que deu origem ao escândalo.

Ao verificar esta informação, encontrei o tal comentário assinado apenas pelo nome “Bee” e sem qualquer outra informação de contato. A pessoa em questão alega ter trabalhado com Cristiane em dois de seus livros. Ela ainda ressalta que não trabalha através do Fiverr.

O trabalho dela, quando chegou a mim, eram algumas cenas confusas que precisavam ser ‘expandidas’, como ela disse. (…) Acreditei que estas eram palavras escritas por ela e as embelezei, como solicitado. (…) Agora consigo enxergar que é possível que aquelas tenham sido cenas plagiadas que ela esperava que um ghostwriter mudasse o suficiente para se tornarem irreconhecíveis.

Na mesma sequência de tweets feitas por Courtney, ela menciona que uma segunda pessoa a procurou e relatou um método de trabalho muito parecido com este. Pouco depois, surge na conversa um novo nome: Harmony Williams. Além de ser autora, ela alegou ter sido procurada por Cristiane Serruya para um trabalho, o qual rejeitou. Harmony aceitou conversar comigo a respeito e relatou sua experiência com mais detalhes:

Cris me abordou em 2017 através do Facebook (o que achei estranho, já que lá não é o local onde atendo meus clientes) e me pediu que fizesse um trabalho. Ela insistiu que nós iríamos ‘trabalhar como um time’ e ela iria me ‘usar’ para finalizar cenas as quais ela estava tendo problemas. Não é assim que eu trabalho, por isso rejeitei a oferta. Eu nunca vi essas cenas, então não posso verificar seu conteúdo.

Apesar de Harmony William ter rejeitado o trabalho oferecido por Cristiane e nunca ter visto as cenas, a informação importante aqui é a confirmação de um método de escrita onde Cristiane supostamente abordaria ghostwriters com cenas pré-determinadas e os pediria para amarrá-las entre si.

Enquanto o escândalo e as acusações só aumentavam ainda houveram duas novas postagens no site de Courtney Milan. Uma delas trazia um anúncio de que ela criou um grupo no Yahoo! Groups onde os autores que alegavam terem sido plagiados poderiam se reunir e discutir em conjunto quais providências poderiam tomar a seguir. O grupo não é aberto a qualquer um, mas até o momento do fechamento deste artigo conta com 19 membros. A outra postagem trazia um pedido de desculpa de Delaria Davis, a responsável por editar o livro “Royal Love”. Delaria deixa claro em sua mensagem que reprova toda forma de plágio e que, se desconfiasse de algo assim jamais teria aceito este trabalho. A própria Courtney publicou em seu twitter que não culpava Delaria ou demais profissionais envolvidos, além da própria Cristiane.

Hora de cavar mais fundo

Neste ponto ficou bem claro para mim que haviam vários relatos e fontes em toda essa história, mas seria impossível escrever um artigo completo sem ouvir a própria Cristiane Serruya, por isso comecei a procurar formas de entrar em contato com a autora acusada. Seu site oficial se encontrava fora do ar, assim como seu Twitter e Instagram. Só me restava arriscar um contato pela fanpage no Facebook. Abri a página e lá estava, ainda no ar. Durante todo o dia 20 fiz diversas pesquisas sobre o assunto, conversei com vários profissionais da área e me preparei para fazer algumas perguntas a Cristiane. Quando finalmente voltei a fanpage, que eu havia deixado aberta em meu navegador, não consegui mandar mensagem alguma. Ao tentar atualizar a página, adivinha o que aconteceu?


A fanpage foi apagada em algum momento entre as 14h e 15h do dia 20. E lá ia por água abaixo minha chance de conversar com Cristiane. Mas aquela não podia ser minha última chance. Não podia, e não foi. Ao pesquisar pelo nome da autora no google encontrei sua página de autora na Amazon. Além de uma breve biografia, a página também trazia links para o site e redes sociais de Cristiane. Todos fora do ar. Também havia um link para sua newsletter. Ao abri-lo em meu navegador vi que a newsletter ainda estava ativa e, portanto, era minha única chance de falar com Cristiane. Me inscrevi e logo recebi um e-mail de confirmação. No campo destinado ao remetente estava o e-mail profissional de Cristiane.

Minha primeira mensagem informava que eu iria escrever uma reportagem sobre o escândalo e as acusações endereçadas a ela e perguntava se ela gostaria de ter a oportunidade de contar sua versão dos fatos e/ou se defender de alguma forma. A resposta de Cristiane veio mais rápido do que o esperado: ela queria saber para qual jornal eu trabalhava. Este foi o primeiro momento que eu tive certeza de que não receberia mais resposta alguma. Fui totalmente sincero. Disse que não trabalhava para jornal algum. Tinha apenas um podcast de literatura e pretendia publicar o artigo em meu site. Pouco depois ela quebrou minha expectativa e disse que eu poderia mandar minhas perguntas.

Elaborei algumas. Todas elas eram diretas e usavam minha pesquisa e minhas fontes como guia. Eram perguntas incisivas, eu admito, poderiam facilmente ser ignoradas. Mandei todas as perguntas a Cristiane e tive, pela segunda vez dentro de poucos minutos, a certeza de que ela não me responderia mais.

Duas novas evidências antes do fim

Já era a noite do dia 20. Um dia muito intenso para mim, cheio de pesquisas. Li inúmeras postagens e textos de pessoas irritadas com a situação. Não tiro a razão dessas pessoas, eu estaria muito irritado se desconfiasse que fui plagiado. Mas todos os textos e relatos tinham um pequeno defeito em comum: nenhum deles continha o posicionamento de Cristiane Serruya além dos tweets que ela fez antes de deletar sua conta. Por mais tentador que seja aderir aos dois minutos de ódio para o qual a internet nos convida todos os dias, e por mais que houvessem muitas evidências para embasar essas acusações, ainda me faltava ouvir o que a própria Cristiane tinha a dizer.

Mais tarde voltei para frente do computador para ver se ela tinha respondido minhas perguntas. Nada. Minha surpresa veio em outro lugar. Havia uma mensagem de um desconhecido em minha fanpage no Facebook. Entenda, isto é completamente estranho. Por não concordar com os algoritmos do Facebook eu praticamente não acesso minha própria fanpage. Prefiro me dedicar as outras formas de me comunicar com meus leitores. Por causa disso, não é comum que entrem em contato comigo pelo facebook. Mas naquela noite, alguém fez exatamente isto.

A mensagem era apenas:

se você estiver fazendo um artigo sobre #copypastecris, eu posso ajudar

A primeira coisa que fiz foi verificar o perfil da pessoa para saber se valia a pena ter aquela conversa. Se tratava de um autor americano. Decidi responder à mensagem com um: “sim, estou escrevendo esse artigo. Como você pode me ajudar?”.

A resposta não demorou para chegar e me deixou de queixo caído. Faço abaixo uma tradução das palavras que esta pessoa me enviou:

Sim, ela entrou em contato comigo por e-mail (não pelo Fiverr) perguntando se eu poderia ajudá-la em um livro o qual ela estava tendo problemas para terminar. Eu passei meu preço e ela concordou, então eu fiz uma pequena edição para ela. O livro era só um monte de cenas desconexas que precisavam ter transições adicionadas, que é o que eu costumo fazer as vezes para autores. Eu não tinha ideia de que as cenas eram plagiadas na ocasião, mas agora que eu consulto os arquivos percebo que elas eram. Trabalhei com ela duas ou três vezes. Em 2018 ela não pagou minha última cobrança apesar de eu ter cobrado por vários meses, então não é necessário dizer que eu não trabalhei com ela outra vez.

Quando li esta mensagem fiquei em choque por alguns minutos. Essa pessoa, que pediu que eu não citasse seu nome neste artigo, confirmava a versão dos outros ghostwriters divulgada por Courtney Milan. Agradeci este colaborador anônimo pelo contato e perguntei se havia mais algo que ele gostaria de dizer sobre o assunto. A resposta você confere abaixo:

Apenas que eu realmente não acho que seja culpa dos ghostwriters nesse caso. Nós frequentemente consertamos livros e os ajudamos a se tornarem publicáveis então nós sempre acreditamos que as pessoas com as quais trabalhamos estão agindo de boa fé, especialmente porque é o nome delas que irá aparecer no livro!

Não preciso dizer que fui dormir transtornado, com a certeza de que tinha em mãos uma história muito maior do que havia imaginado a princípio.

No dia seguinte, quando finalmente organizei toda minha pesquisa e sentei para escrever o artigo me dei conta de algo curioso. O livro “Royal Love”, a principal obra de Cristiane acusada de plágio, tinha 240 resenhas na Amazon. Veja bem, eu também sou autor autopublicado. Entendo perfeitamente que escrevo para o mercado brasileiro, que é muito menor do que o americano, mas mesmo assim uma autora acusada de plágio alcançar a marca de 240 resenhas me pareceu um feito maravilhoso demais para ser ignorado. Ao comentar isso com alguns colegas surgiu uma nova dúvida. Aquelas resenhas seriam reais? Impossível responder, certo? Talvez seja mesmo impossível verificar se as resenhas são reais ou não, mas após mais uma breve busca no Google descobri que havia um site que podia me ajudar.

O Fakespot é um site que avalia resenhas de produtos de diversas lojas online, bastando que para isso você providencie o link onde o produto está sendo vendido e avaliado. O que o Fakespot faz é basicamente ler todos os comentários e procurar padrões que se pareçam suspeitos ou comentários incentivados. Após ler todos os comentários, a ferramenta desconsidera aqueles que são identificados como irrelevantes e concede uma nota as demais avaliações do produto que vai de A a F. Apesar do ebook “Royal Love” não estar mais disponível na Amazon, o livro ainda está sendo comercializado no formato físico e em audiobook. Utilizei este link para verificar as avaliações pelo Fakespot. Também avaliei o livro The Duchess War, de Courtney Milan, que é um dos livros que supostamente teria sido plagiado. O resultado das duas avaliações você confere abaixo.



O desfecho

Não é meu trabalho dizer neste texto qual é a minha opinião sobre essa história. Meu trabalho é apresentar os fatos e mostrar o máximo de fontes possível. E foi isso o que eu fiz. Acredito que, no final desta reportagem, você terá evidências o suficiente para tirar suas próprias conclusões. A propósito, no dia 21 quando acordei e verifiquei meu e-mail, lá estavam as respostas de Cristiane Serruya. Ela respondeu cada uma das minhas perguntas. E é com essa entrevista que eu decido encerrar este texto. Agora sim você tem a sua disposição todos os fatos, fontes e versões. Para um melhor contexto da entrevista, explico duas coisas mencionadas por Cristiane em suas respostas:

Pantser-plotter-puzzler: São três tipos básicos de autores. O primeiro (pantser) simplesmente senta e escreve sua história, sem qualquer planejamento. O segundo (plotter) costuma planejar suas ideias, cenas, personagens antes de finalmente começar a escrever a história. O terceiro (puzzler) não escreve necessariamente em ordem cronológica e tem um método criativo que pode soar mais caótico para alguns. Consiste em criar cenas soltas, anotar ideias, personagens ou qualquer outro elemento narrativo até que tenha material o suficiente para criar uma história. A alegação de Cristiane, como você verá a seguir, se refere ao método de escrita que ela utiliza, misturando elementos dos três.

RITA: Prêmio organizado pela Romance Writers of America (Escritores de romance da América), considerado o principal prêmio do gênero. O prêmio tem duas etapas. Na primeira os próprios inscritos tem a oportunidade de votar, bem como outros membros da RWA. Na segunda etapa é escolhido um júri de cinco pessoas. Ao verificar a informação passada por Cristiane encontrei referências de que Courtney Milan e Tessa Dare estão sim envolvidas com o prêmio.

A resposta de Cristiane Serruya


Lucas Mota: No site Caffeinatedfae tem uma lista com mais de 30 livros, artigos e até receitas compilados por leitores que alegam que, em algum momento ou trecho, eles foram plagiados por você em seus livros. Como você responde a essas acusações?

Cristiane Serruya: Não tenho conhecimento deste artigo. Estou fora da internet desde ontem à tarde. Nunca plagiei ninguém. Sou advogada e sei que plágio é crime. Acordei no dia 19 com o meu nome sendo enlameado e apedrejado sem que eu soubesse do que se tratava. Pode parecer cliché, mas quando coloquei os óculos e olhei a tela do telefone, achei que estava ainda dormindo e tendo um pesadelo.

LM: Tudo começou com uma postagem da autora Courtney Milan no dia 18/02. Ela foi a primeira alegar ter sido plagiada. Existem prints de postagens no twitter onde você tentou conversar diretamente com ela a respeito dessas acusações. A conversa chegou a acontecer?

CS: Não. A autora não quis entrar em contato comigo, apesar de, além da mensagem no Twitter, eu ter também enviado um e-mail pessoal para ela e para a representante do Romance Writers of America. A representante do Romance Writers of America gentilmente respondeu ao meu email, informando que está tomando conhecimento do que se passa. Nem eu entendi o que está acontecendo ainda.

LM: Em uma matéria publicada no The Guardian, é mencionado que o livro "Royal Love" não está mais disponível para compra online. Essa informação procede?

CS: Sim, no momento em que tomei conhecimento de que supostamente poderia haver plágio em um dos meus livros, retirei de venda TODOS os meus livros, desde o ensaio filosófico que escrevi quando tinha 18 anos—cujos royalties doo para o Doctors without Borders junto com minha contribuição mensal — como também os livros que escrevi sozinha.

LM: De quem foi a decisão de tirar o livro das lojas?

CS: A decisão foi minha. Não queria pessoas vingativas dando 1 estrela para meus livros sem os terem lido. Também requeri que todas as contas da editora fossem fechadas.

LM: No final da postagem de Courtney, ela termina bastante irritada e faz algumas exigências diretamente pra você. Você atendeu ou pretende atender essas exigências?

CS: Atendi à primeira das exigências da Courtney antes mesmo de ler o post, qual seja, a retirada do livro Royal Love de venda. E não porque ela pediu, mas porque sou uma pessoa séria, de nome limpo, honesta. Fui eu que avisei ao RWA que o livro estava no concurso e fui eu que pedi que fosse retirado. E ela sabia disso, porque estava copiada no e-mail.

Postei no meu fã-grupo de FB e no Twitter, mas depois que uma multidão enfurecida começou a deturpar todas as minhas palavras, e me linchar virtualmente, inventando coisas ensandecidas sobre a minha pessoa e fatos que nunca aconteceram, resolvi tirar do ar todos os meus perfis, não ler mais nenhuma mensagem, nem fazer mais nada, até que um representante oficial entre em contato comigo. Mídia social não é lugar para tratar deste tipo de requerimento, ou qualquer outro desta seriedade.

Nunca ganhei nenhum tostão com nenhum livro em todos estes anos. Ainda estou no prejuízo. Até meados do ano passado, 30% dos meus royalties ficavam retidos na fonte para o IRS (imposto de renda americano) e eu ainda pagava mais 15% ao Leão aqui no Brasil. Os gastos para publicar um livro são enormes — foto para a capa, fonte da capa, capa, designer, vídeos, imagens, e voiceover para o trailer, confecção do trailer, no mínimo dois a três rounds de edição, e pelo menos um de proofreading, imagens variadas para propaganda, imagens para anúncios, anúncios no Facebook, Instagram, e Amazon, blog tours, sites de propaganda especializada, etc… Sem falar nos custos fixos de manutenção de site, domínio, mailing list, newsletter, sales tracker, internet, computador, etc.... Sem falar na perda com a taxa de câmbio, na tarifa bancária para fazer o câmbio, no IOF. Não é assim fácil como parece e, para completar, eu sou péssima em marketing.

LM: A própria Courtney alegou mais tarde em seu twitter pessoal que entrou em contato com duas pessoas que teriam, supostamente, trabalhado como ghostwriters para você. Os dois relatos apontam um processo criativo parecido. Um deles está em um comentário feito no próprio texto de Courtney e relata que você apresentou uma série de cenas que precisariam ser expandidas pelo ghostwriter e "costuradas' entre si. Essa informação confere? Este é, de fato, um dos seus processos criativos?

CS: Não tenho como comentar sobre conversas tidas por outros em privado, não sei quem alegou o que, porque, ou quando, mas nunca apresentei ou pedi nada neste sentido.

Sou uma pantser-plotter-puzzler. Dependendo, posso escrever parte do epílogo antes do prólogo. Escrevo as cenas intermediárias fora de ordem, só aí faço o plot, coloco elas em ordem e faço a glue, ou a costura. Às vezes, jogo fora cenas que não gostei ou não cabem mais na trama.

Infelizmente, ouvi o conselho de alguns mentores de que o ideal era publicar pelo menos um livro por mês, e ter muitos livros publicados. Não consigo. Gosto de escrever livros com tramas de suspense romântico e com personagens diferentes: de herói amputado a heroína muda, de culto religioso na Irlanda ao mundo das drogas da Rocinha. Para isso, preciso estudar, pesquisar, muitas vezes conversar com pessoas que estejam nesta situação, e só aí vestir a pele do personagem — seja do herói/heroína ou do vilão/vilã. Pretendia escrever um livro em que o herói era cego e já estava em tratativas com o Instituto Benjamin Constant para não só fazer entrevistas com as pessoas lá, mas para doar todo o valor arrecadado na pré-venda e semana do lançamento. Está tudo suspenso.

Tenho muitas ideias, tantas que não consigo dar conta, e as ghostwriters eram apenas para me ajudar em algumas partes/cenas, jamais para escrever o livro todo. Muitas vezes escrevo com gelo nas mãos para amainar a dor. Mesmo assim, só consigo publicar em média um livro de 3 em 3 meses.

LM: Seu site oficial está fora do ar, assim como seus perfis oficiais no Twitter, Facebook e Instagram. Por que razão? Tem alguma relação com estas alegações e com uma possível atenção indesejada na internet?

CS: Recebi mensagens — por meio da aba contato do meu site e de várias mídias sociais — de pessoas que não conhecia, com xingamentos e ameaças não só à minha pessoa, como à minha família. Até que este problema esteja resolvido, ficarei fora da mídia social e não entrarei em nenhuma discussão sobre qualquer assunto. A representante do Romance Writers of America tem meu endereço de e-mail, telefone e endereço pessoal.

Para terminar, gostaria de dizer que é tamanha a estupidez de copiar palavras de vários super bestsellers, que por si só, já deveria ser uma espécie de evidência de que não fui eu. Nem sei como as pessoas pensam que eu, que escrevo com meu nome verdadeiro, moro no mesmo endereço há mais de 20 anos, e sou advogada, faria isso. Eu inscrevi o Royal Love no concurso RITA, do Romance Writers of America, do qual a Courtney Milan e a Tessa Dare são juízas. Eu doei o Royal Love, junto com outros brindes, que paguei com o meu dinheiro, para o The BookWorm Box, da super famosa autora Colleen Hoover. O produto da venda desta Box reverte integralmente para instituições de caridade, e ele teve que ser retirado na última hora.

Em mais de 28 anos de carreira na advocacia, jamais tive uma reclamação de cliente, de ex-adverso, ou de quem quer que fosse. Muito pelo contrário.

Eu fui enganada. Quero por uma pá de cal nesse assunto o mais rápido possível.

Após receber estas respostas, pedi que Cristiane explicasse melhor como, exatamente, ela teria sido enganada. A única resposta foi para dizer que não poderia mais me responder por falta de tempo.

Atualizações


24/02/2019 – Cristiane entrou em contato comigo alegando que as resenhas de seus livros são verdadeiras. A leitora Christie Thorsen  confirmou essa informação, ela diz ter recebido uma cópia de um dos livros de Cristiane através do site Hidden Gems Books onde leitores podem se cadastrar para ganhar ebooks de graça em troca de uma resenha honesta após a leitura. Christie também diz que após o surgimento das alegação de plágio, ela apagou todas as resenhas que fez para os livros de Cristiane Serruya. Um segundo leitor também entrou em contato para dizer que analisou sites como o Fakespot e não os considera confiáveis.

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12 comentários

  1. Parabéns pela reportagem!

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  2. Parabéns pelo viés jornalístico do texto. Mas confesso que como suposta escritora, fiquei extremamente desanimada com essa história de resenhas fake. Escrever é quase um parto para mim, e não estou falando de expor as dores da alma, estou falando de histórias que aparentemente são simples e divertidas, mas que exigem um grande esforço e quando você pensa em mostrá-las para as pessoas, buscar um lugarzinho ao sol seja na Amazon ou em qualquer outro lugar, sempre haverá gente mal intencionada disposta a usar o dinheiro e os algoritmos a seu favor. Quero parar o mundo e descer.

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  3. Eu queria poder beber até chegar ao ponto de culpar os outros por um crime que eu cometi, sabe? Porque é isso o que eu vejo nessa história toda: alguém fez o que não devia, foi pega no pulo e agora está tentando sair pela tangente, dizendo que não sabia de nada.

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  4. Parabéns Lucas! Seu artigo trouxe conceitos que eu, francamente, desconhecia. Sim, atingiu o objetivo de mostrar os fatos permitindo ao leitor sua própria conclusão.

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  5. I'm quite pleased by the efforts you made to fully explore the charges. Even though the evidence is quite clear that plagiarism occurred and that the books were published under Cris' name, thereby making her legally responsible for the content, there is still the question of what the the ghostwriter's involvement was.

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  6. Parabéns pela matéria, realmente super consistente. Eu tô em choque com essa mulher, não sei nem o que pensar. Só consigo pensar que ela ou é muito burra por fazer algo que ela disse que seria burrice, ou então tem algum transtorno psicologico porque não tem condições.

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  7. Parabéns pelo texto! Ótima pesquisa! Que essa situação toda seja resolvida logo! Plágio é crime e acusar os ghostwriters pode ser bem pior.

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  8. Surreal essa história. Parabéns pela matéria!

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  9. Tô passado com essa história. Eu sempre fui muito ingênuo achando que os escritores trabalhavam para se expressar, se comunicar e etc. Dai cai com o queixo sabendo que tem gente que publica de três em três meses, paga para alguém "melhorar" suas histórias, e de quebra plagia outros autores. Tô passado na manteiga. EU não tenho opinião ainda para dizer quem é culpado, quem plagiou, mas fica um alerta né!
    Ótima reportagem! Parabéns.

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  10. O que mais.me.chama a atenção é de como é devorador o mercado americano. Lançar 1 livro por mês pra o sucesso? Caramba. Impossível fazer sozinho.

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  11. Amei a reportagem, bem Capotiana, justa e claro, muito bem escrita. Uma das coisas que mais me intrigam nessa história digna de filme, é o trabalho insano que essa mulher teve para pegar todas essas 'referências'... não era mais fácil inventar tudo? Pelo visto nunca leu Borges, coitada... E agora além de perder toda a 'fama' (pela foto dela até imagino como deveria usar esse lance de ter virado uma escritora...) e ainda vai ter que morrer com 25.000. Boa noite e boas leituras! :)

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  12. Um caso estranho; eu morava na rua Real grandeza em botafogo Rio de Janeiro e frequêntava os funerais no cemitério São João Batista, funeral de pessoas desconhecidas e via os sepultamento .
    Quando eu cheguei em casa , fui logo dormi .
    Eu morava em uma pensão para rapaz e os rapaziada liam os jornais diários, largava sobre a mesa e iam dormir . então nesta noite tive um sonho .
    Sonhei todo o crime de uma juvem que ocorre no Rio de Janeiro .
    Pensei vou ajudar os familiares desta jovem .
    Para a minha surpresa foi quando acordei ,vitalizandoas o jornal na mesa e dei uma olhada sem rápida para a minha surpresa tudo que sonhara estava escrito na página aberta sobre a mesa . Estranho a percepção extra-senssorial que as pessoas desenvolvem com muitas leituras sobre os artigos de auto ajuda .
    O que quero dizer : tudo e infinito para as pessoas que escreve uma obra quaisquer , mas para uma pessoa que tem muitas leituras e tarefas estudos compromissos, não é fácil escrever um artigo ou comentar um fator que não tenha já lido em obras já escritas, como saber se realmente é uma cópia de trechos já escrito por um outro autor, na revisão na correção ortográfica .
    As acusações sem ver esses itens também é um deslize dos plagiados .
    Os espíritas diz que os zombeteiro ou seja espíritos brincalhões ajem deste modo em várias profissões e os escritores não está isento desses atos . obrigado (desculpa os erros não sou da profissão só leitor )

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